segunda-feira, 9 de abril de 2012

PATROLOGIA E PATRÍSTICA 8 - O Pastor de Hermas

O Pastor de Hermas (em grego: Ποιμήν του Ερμά; em hebraico: רועה הרמס; às vezes chamado simplesmente de O Pastor) é uma obra literária cristã do século II dC e considerada como parte do cânon bíblico por alguns dos Padres da Igreja no período inicial do Cristianismo e teve grande autoridade entre os séculos II e IV dC.  Juntamente com alguns apócrifos, o texto estava encadernado juntamente com o Novo Testamento no Codex Sinaiticus e também estava listada entre os Atos dos Apóstolos e os Atos de Paulo na lista esticométrica do Codex Claromontanus. Embora os primeiros cristãos devotassem grande respeito ao Pastor, eles não o consideravam no mesmo nível que os textos chamados "divinos" e sim como uma obra apócrifa.

A obra foi originalmente escrita em Roma, em grego, embora uma tradução latina tenha sido feito logo em seguida. Apenas esta última sobreviveu completa até os tempos modernos. Da grega, perdeu-se aproximadamente um quinto do texto no final da obra.
O Pastor é um dos significados que foram provavelmente atribuídos à algumas estatuetas do Bom Pastor (além do símbolo para Cristo). E também para as imagens pagãs do bom pastor (kriophoros).


Conteúdo

O livro é composto de cinco visões tidas por Hermas, um escravo liberto. A elas se seguem doze mandamentos e dez parábolas. O texto inicia abruptamente, em primeira pessoa: "Ele que me criou me vendeu para uma tal Rosa, que estava em Roma. Após muitos anos eu a revi e passei a amá-la como minha irmã".[4] Como Hermas estava viajando até Cumae, ele teve uma visão de Rosa, que estaria morta. Ele lhe contou que seria a sua acusadora no céu por conta de um pensamento impuro que o narrador (casado) teve uma vez sobre ela, ainda que rapidamente. Ele teria então que rezar pedindo perdão para si e os seus. Ele é consolado então por uma visão da Igreja, na forma de uma velha, fraca e indefesa contra os pecados dos fiéis, que pede que ele faça uma penitência e que corrija os pecados de seus filhos. Em seguida, ele a vê rejuvenescida pela penitência, ainda que marcada e com cabelos brancos; depois novamente jovem mais ainda com os cabelos brancos e, finalmente, ela se mostra gloriosa e bela como uma noiva.

Esta linguagem alegórica persiste ainda em outras partes da obra. Na segunda visão, ela dá a Hermas um livro, que toma depois de volta para acrescentar mais nele. A quinta visão, que se passa vinte dias depois da quarta, introduz o "anjo do arrependimento" na forma de um pastor, personagem de quem a obra toda toma emprestado seu nome. Ele entrega à Hermas um conjunto de mandamentos (mandata, entolai), que formam um interessante desenvolvimento da ética cristã primitiva. Um que merece especial menção é o que ordena ao marido que aceite de volta a esposa adúltera uma vez que ela se arrependa. O décimo-primeiro mandamento, sobre humildade, é sobre os falsos profetas que desejam ocupar as primeiras posições (entre os presbíteros). Alguns autores viram aqui uma referência à Marcião, que veio à Roma em circa(por volta de) 140 dC com a intenção de ser admitido entre os padres (ou, possivelmente, até se tornar o bispo de Roma).

Após os mandamentos vêm as dez parábolas (parabolai) na forma de visões, que são posteriormente explicadas pelo Anjo (o "pastor"). A maior destas (parábola 9) é um complemento da parábola sobre a construção de uma torre, que forma o núcleo da terceira visão. A torre é a Igreja e as pedras com as quais ela é construída são os fiéis. Porém, na terceira visão, há a impressão de que apenas os "santos" seriam parte da Igreja. Na parábola 3, fica bastante claro que todos os batizados estão incluídos, embora eles possam ser excluídos se cometerem pecados graves, com a possibilidade de readmissão vinculada à penitência.

Apesar de tratar de assuntos pesados, o livro está escrito num tom muito otimista e esperançoso, como a maior parte das obras literárias do início do Cristianismo.

Cristologia

Na parábola 5, o autor menciona um "Filho de Deus" como sendo um homem virtuoso preenchido com um sagrado "espírito pré-existente" e adotado como o Filho:

“Deus fez habitar na carne que ele havia escolhido o Espírito Santo preexistente, que criou todas as coisas. Essa carne, em que o Espírito Santo habitou, serviu muito bem ao Espírito, andando no caminho da santidade e pureza, sem macular em nada o Espírito. Ela se portou digna e santamente, participou dos trabalhos do Espírito e colaborou com ele em todas as coisas. Comportou-se com firmeza e coragem e, por isso, Deus a escolheu como companheira do Espírito Santo. Com efeito, a conduta dessa carne agradou a Deus, pois ela não se maculou na terra, enquanto possuía o Espírito Santo.  ”
— Pastor de Hermas, parábola 5,

No século II dC, o Adocionismo (a visão de que Jesus Cristo seria apenas um mortal) era uma das duas doutrinas competidoras para explicar a verdadeira natureza de Jesus, a outra sendo a de que ele pré-existia como um espírito divino (Logos ou o Verbo). A identidade (igualdade) de Cristo com o Logos (como em «No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus» (João 1:1) foi afirmada em 325 dC no Primeiro Concílio de Nicéia.[6]

Autoria e data

As evidências para o lugar e data desta obra residem na linguagem e na teologia da obra. As referências a Clemente de Roma sugerem uma data entre 88 e 97 dC para pelo menos a localização temporal das primeiras duas visões. Uma vez que Paulo enviou saudações para um Hermas, um cristão de Roma (em Romanos 16:14), uma minoria concordou com a opinião de Orígenes de que ele era o autor desta alegoria religiosa. Porém, a crítica textual, a natureza da teologia e a aparentemente familiaridade do autor com o Apocalipse e outros textos joaninos, no permitem fixar a data da obra como sendo no século II dC [carece de fontes].

Três antigas testemunhas, uma das quais afirma ser contemporânea, declaram que Hermas era o irmão do Papa Pio I, cujo pontificado aconteceu não antes de 140-155 dC, o que corresponde ao período proposto por J.B. Lightfoot. São elas:

·  O Cânone Muratori, uma lista escrita em ca. (por volta de) 170 dC e que é o mais antigo cânon do Novo Testamento sobrevivente, identifica Hermas, o autor do Pastor, como sendo irmão do Papa Pio I, bispo de Roma:

“Mas Hermas escreveu O Pastor recentemente, no nosso tempo, na cidade de Roma, enquanto o bispo Pio, seu irmão, estava ocupando a cadeira da igreja da cidade de Roma. E, portanto, ele deve sim ser lido; mas ele não pode ser lido publicamente para o povo na igreja nem entre os Profetas, cujo número está completo, e nem entre os Apóstolos, pois ele foi escrito depois de seu tempo”.

Cânone Muratori, 

·   O Catálogo Liberiano de Papas, um registro que foi, posteriormente, utilizado como fonte para o Liber Pontificalis, afirma, num trecho sob o cabeçalho 235, que "Sob o seu [de Pio] episcopado, seu irmão Ermes escreveu um livro em que estavam contidos os mandamentos que o anjo lhe entregara quando veio até ele na forma de um Pastor". Com base em inconsistências no próprio catálogo, há dúvidas sobre a utilidade dele na datação do Pastor.[9]

·  Um poema escrito contra Marcião do século III ou IV dC, por um autor adotando o nome e a persona de Tertuliano - conhecido como Pseudo-Tertuliano - afirma que "Então, após ele, Pio, cujo irmão carnal era Hermas, o pastor angélico, que contou as palavras que lhe foram dadas".

Estas autoridades podem estar citando a mesma fonte, talvez Hegésipo, cuja história da Igreja antiga, hoje perdida, foi uma das fontes para Eusébio. Como Pseudo-Tertuliano cita alguns detalhes desta lista que estão ausentes do Catálogo Liberiano, possivelmente ele tenha tido uma fonte independente. Que Hermas escreveu durante o pontificado de seu irmão pode também ser inferido pelo fato de que foi justamente numa lista de papas que o autor encontrou a informação de que Hermas seria o irmão do Papa Pio I.

Fontes

O Pastor faz muitas citações indiretas do Antigo Testamento. De acordo com Henry Barclay Swete, Hermas nunca cita a Septuaginta, mas ele usa uma tradução do Livro de Danielsimilar à que foi feita por Teodócio. Ele mostra familiaridade com um ou outro dos Evangelhos sinópticos e, já que ele também se utiliza do Evangelho de João, é provável que ele tenha conhecido os quatro. O autor parece utilizar a Epístola aos Efésios e outras epístolas, incluindo talvez I Pedro e Hebreus. Mas os livros que ele certamente utilizou e que frequentemente cita são a Epístola de Tiago e o Apocalipse.

Lugar na literatura cristã

Comentários de Tertuliano e Clemente de Alexandria transparecem uma resistência ao Pastor a quem os lê e uma sensação de controvérsia sobre ele. Tertuliano conclui que o Papa Calisto I o citou como uma autoridade (embora, evidentemente, não como um dos livros da Bíblia), pois ele responde: "Eu admitiria seu argumento se a escritura do Pastor, a única que favorece os adúlteros, tivesse merecido ser incluída no Divino Instrumento e se ela não tivesse sido julgada por todos os concílios de Igrejas (mesmo as vossas), como sendo parte das apócrifas e falsas". E, novamente, ele diz que a Epístola de Barnabé é "mais recebida entre as Igrejas que o apócrifo Pastor dos adúlteros". Embora Clemente de Alexandria constantemente cite, com reverência, uma obra que lhe parece ser muito útil e inspirada, ele se desculpa a cada vez que o faz, sob o argumento que "muitos a desprezam".

Duas controvérsias dividiam os cristãos desta época: uma foi o Montanismo, caracterizado pelas contínuas revelações pentecostais obtidas em êxtase e cujas visões do Pastor podem parecer encorajar; a outra foi o Docetismo, que ensinava que Cristo teria existido desde o "começo" e que a realidade corpórea de Jesus (o homem) seria simplesmente uma ilusão.
Fonte: Wikipédia, a enciclopédia livre.

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1. Introdução

No presente trabalho pretende-se fazer uma abordagem do tema sobra o Pastor de Hermas, Vida e Obra, a sua Teologia e o seu impacto na vida dos Cristãos. Para tal precisaremos de ser mais sintéticos e fiéis na elaboração, tentando obedecer a seguinte ordem:

1. Definição do termo “Pastor”;
2. Vida e Obra de Hermas;
3. A sua Teologia;
3.1. A Penitência,
3.2. Efeitos da penitência,
3.3. Eclesiologia;
3.4. O Batismo;
4. A Ética;
5. Apreciação Crítica Pessoal;
6. Conclusão
Bibliografia.

Falar da vida de alguém não é tão fácil, mas daquilo que Pastor de Hermas nos diz na sua obra intitulada «Pastor de Hermas» é a boa nova sobre o Sacramento da Penitência e seu valor dentro dos fiéis batizados. Ele disse que os cristãos batizados têm a possibilidade de arrependerem-se dos seus pecados e confessar ou melhor irem ao Penitenciário.

A obra em termos de conteúdos é muito interessante; fala de Visões, das Parábolas, da Moral e dos Mandamentos. Por isso iremos detalhadamente falar deste Autor apesar de termos exiguidade de fontes. Hermas convida a cada crente à Penitência ou Reconciliação.

1. DEFINIÇÃO DO TERMO “PASTOR”

O Antigo Testamento desconhece o uso da palavra (Ro`eh) como título aplicado aos deuses e homens como era de usado no Oriente em geral. Javé guia o seu povo, o seu rebanho (Sl 68,3;23,3), à procura de pastagens (Sl. 23,2); (Jr. 50,19) chama as ovelhas dispersas (Is 56,8) e carrega-as.

No Antigo Testamento não se encontra o termo "Pastor" como título real. Só o futuro Messias da casa de David receberá tal título. Ele exercerá o ofício de Pastor e apascentará o seu povo como único Pastor (Ez 34,23ss); Israel e Judá se tornarão um Povo sob um só Pastor (Ez 37, 22-24).

No Novo Testamento o termo "Pastor" sob a sua forma grega é aplicado a Deus só em Lc 15,4-7, na parábola da Ovelha perdida, se é que ai já não é o caso do próprio Cristo.

A Igreja Primitiva designa com ênfase a Jesus como o "grande Pastor" (Hb 13,20); como Pastor e guarda de nossas almas (1 Pdr2,25); como "Supremo Pastor" (1Pdr 5, 4) sob o qual estão os Bispos e Presbíteros que pastoreiam o rebanho de Deus (Jo 21,15ss e At 20,28). Hermas é um Pastor religioso que contém as revelações feitas ao seu autor em Roma, por duas figuras Celestes: uma matrona e um Anjo vestido de Pastor. Daqui o título "Pastor de Hermas" e seria de origem ou formação judaica.

2. VIDA E OBRA DO PASTOR DE HERMAS

A data do seu nascimento é difícil determinar. A partir do texto e do fragmento Muratoriano podemos concluir que a parte mais antiga remontará ao Papa Clemente I e redação definitiva de Pio I mais ou menos (180-200). Esse fragmento diz que o "Pastor de Hermas foi escrito na cidade de Roma, enquanto o seu irmão Pio era Bispo da cidade de Roma entre (140-154). Este escrito de carácter apologético e Simbólico, onde as circunstâncias familiares e Pessoais são claramente expostas, ilustrar a situação da Igreja nos decénios do século II, depois de grande prova das perseguições" . Pastor de Hermas teve a má sorte de ser vendido como escravo, mas a boa Senhora que tinha comprado deu-lhe logo a liberdade. Casou-se com uma senhora rica e tornou-se homem rico e com muitos filhos.

Não tendo dado uma educação aos filhos, estes denunciaram os pais, aquando das perseguições, aos quais foram confiscados todos os bens e ficaram pobres. Esta desgraça o fez com que se convertesse ao cristianismo e sentiu-se impelido pelo Espírito Santo a pregar a Penitência.

Pastor de Hermas revela-nos uma cultura judeu-cristã; a linguagem é aquela do Povo. Não é um letrado, é um homem prático, bom conhecedor dos homens e bom moralista.

Hermas (Pastor), tal como se apresenta hoje, este livro contém 114 capítulos e três grandes partes: 1ª (5) Visões, do Capítulo 1-25; 2ª (12) Preceitos, do Capítulo 26-49 e 3ª (10) Parábolas ou Similitudes, do Capítulo 50-114. É a obra de um compilador que reuniu retocando-os, dois livros anteriores do século II, sendo deles (correspondentes às visões I-IV), a obra de um certo Hermas e, o outro (visão V preceitos e parábolas), anônimo.

Ao que parece, também estas duas obras tiveram fontes hebraicas. A primeira parte das visões (I-IV) se mostra sob um aspecto semi-autobiográfico, semi-romanesco: uma anciã (Símbolo da Igreja) aparece a Pastor de Hermas, tranquiliza-o sobre a gravidade dos pecados dele se acusa (visão I) e lhe confia uma missão de dar a conhecer e anunciar um Dia de perdão para os cristãos que pecaram depois do batismo, com a condição de que se arrependam (visão II).

Na visão III, Hermas, vê uma Torre construída com todo tipo de pedras, umas belas, outras rachadas, a anciã explica ser esta a imagem da Igreja, que tem em si Santos e pecadores arrependidos que era preciso apressar-se em fazer a Penitência, pois uma vez construída a Torre, será tarde demais. Em seguida, o Pastor de Hermas vê adiantar-se uma mostra; uma jovem, na qual reconhece a Igreja rejuvenescida, lhe diz ser símbolo da grande provação que está por vir (visão IV).

Na visão V aparece o Pastor, que ordena a Hermas transcrever seus Preceitos e suas Parábolas. Os Preceitos anunciam os doze Mandamentos em relação a Deus e ao Próximo que passaremos a citar:

"1. Fé em Deus criador (Cap. 26)
2. Caridade e simplicidade (Cap. 27)
3. Amor de verdade (Cap. 28)
4. Castidade, matrimônio, segundo matrimônio (Cap. 29-32)
5. Paciência e Cólera (Cap. 33-34)
6. As duas vias: Paraíso e Inferno (Cap. 35-36)
7. Termor de Deus, mas não do diabo (Cap. 37)
8. Ações de que se deve abster, obras boas a serem praticadas (Cap. 38)
9. Oração (Cap. 39)
10. Tristeza e alegria (Cap. 40-42)
11. Verdadeiros e falsos Profetas (Cap. 43)
12. Maus desejos (Cap. 44-49)".

As parábolas se apresentam como quadros que servem para pôr em relevo pontos doutrinais ou morais. O Pastor, explica sucessivamente a Hermas a parábola do Olmo de Vinha, figuras do rico e do pobre: o Olmo sustenta a Vinha, que ordena o Olmo (parábola I e II, Capítulo 50); depois a das árvores secas e das verdejantes, símbolo dos pecadores e dos justos (parábolas III-IV, Capítulos 51-53).

A dos vinhateiros do Senhor e do escravo zeloso (parábola V, Capítulos 54-60); a dos dois Pastores: um representando o Anjo da volúpia e, o outro, o da penitência (parábolas - VI-VII, Capítulos 61-66): as parábolas (VIII-IX, Capítulos 67-110) fazem de novo aparecer a Igreja sob dois símbolos: a árvore e a torre.

A última parábola (10ª) dos Capítulos (111-114) serve de conclusão da obra: Hermas deve fazer Penitência e perseverar, deve ainda ensinar aos outros a Salvação; enquanto a torre não estiver concluída, é o tempo de fazer a Penitência. Este livro, que se apresenta como uma revelação, exerceu grande influência. Contribuiu entre outras coisas, para afirmação da ideia de que os pecados cometidos depois do batismo podiam ser perdoados, mas uma única vez: limite que foi mantido nos séculos seguintes para a Penitência pública.

3. A TEOLOGIA

A sua teologia apresenta-se sob forma de três pontos: a Penitência, a Igreja e o Filho de Deus. Os tempos de Hermas são aqueles depois da perseguição de Nero, Dominiziano e Troiano, onde muitos cristãos por medo de morrer tiveram que renunciar a fé. Voltados os tempos de paz querem voltar mas fizeram o grande pecado de negar a Deus e prestar falsos cultos. Dai que Hermas abre uma nova página de Teologia: "conceder uma segunda Penitência depois daquela do batismo" . Há na Igreja uma Penitência institucional posterior ao batismo. É universal e destina-se à "Metanóia". A Igreja, como meio para a Salvação, que foi criada antes das outras criaturas. É uma exortação prática de circunstâncias muito exageradas à Penitência: afirmou que "há possibilidade do perdão dos pecados cometidos depois do batismo até um determinado tempo antes da volta do Senhor". Também afirmou ter uma existência de uma penitência salutar posterior ao do batismo, uma penitência que é proporcionada a todos. A sua teologia centraliza-se mais na penitência e tem como fundamento a fidelidade em Deus.

3.1. A Penitência

Nenhum pecador e, portanto, nenhum pecado é excluído mesmo o impuro e o apóstata exceto, evidentemente, quem não queira arrepender-se. A Penitência deve ser imediata e produzir uma correção no comportamento. E tem como fim intrínseco a metanóia, isto é, uma renovação completa do pecador. Deve ser uma santificação semelhante àquela produzida no batismo pela efusão do Espírito Santo.

Se há a ideia de uma exclusão da Igreja por causa do pecado, também não é menos clara a afirmação de que há sempre a possibilidade de ser readmitido nela pela penitência. Neste sentido, são significativas as considerações que o Pastor fez a respeito da mulher adúltera. Hermas perguntou se o homem que surpreende a mulher em adultério peca ou não. Recebeu como resposta: «Enquanto o ignora não peca, mas se o homem sabe do pecado dela e a mulher se arrepende, mas persevera em sua fornicação, se neste caso o homem convive com ela, se torna réu do seu pecado e participa de sua fornicação». Poder-se-ia ler nestas linhas a força dada à penitência como reintegração à vida de comunhão. De fato, mais adiante, Hermas fez a segunda pergunta: «Se depois de repudiada a mulher fizesse a penitência e quisesse voltar a seu marido, seria ela recebida?». E tem-se a seguinte resposta:

«Pelo contrário, se o marido não a recebe, certamente levará sobre si um grande pecado». Hermas estabelece uma restrição: «Mas não por muitas vezes, pois só há uma penitência para servos de Deus». No outro contexto, Hermas falou do pecador que pela penitência é recebido na Igreja e reencontra o seu lugar na comunidade dos fiéis. Hermas não deixou de frisar que "depois do Batismo onde recebemos a remissão dos nossos pecados o servo de Deus só tem uma penitência" 

3.2. Efeitos da Penitência

Se comparam aos do Batismo, pelo que pode dizer que o perdão divino concedido pela penitência do pecador o reintroduz nos seus direitos na Igreja. Se pelo pecado ele estava excluído da comunidade, pela penitência ele retorna à comunidade.

Por sua vez, o Pastor de Hermas se referiu a uma única penitência. Mas não há uma explicitação de que os pecados produzem a excomunhão e quais os que merecem um perdão na Igreja, sem o qual não há reintegração do pecador na vida da comunidade.

A Didaquê, de modo especial, cita uma série de pecados sem, no entanto estabelecer a gravidade de cada um. Entre eles menciona: "Assassinatos; impureza: adultério, paixões, fornicações; praticas mágicas e bruxarias; Falso testemunho: fraude, falsidade, hipocrisia, má conversa, inimigo da verdade; orgulho: arrogância, cobiça, maldade; vaidade: extravagância, jactância; ausência do temor de Deus; não ter compaixão para com o pobre: desprezar os indigentes e oprimir os aflitos".

3.3. A ECLESIOLOGIA

A Igreja, segundo o Pastor, foi a primeira de todas as criaturas. Por isso se apresenta sob forma da mulher idosa e venerável. O mundo foi criado para a Igreja (visões I, II e IV). Mas a figura mais notável pela qual a Igreja aparece é a da Torre. A Torre representa a Igreja dos predestinados e dos eleitos, a Igreja triunfante, não a Igreja militante na qual Santos e pecadores vivem lado a lado. Esta Igreja está fundada sobre uma rocha que é Cristo.

Hermas apresentou a Igreja como corpo de Cristo e Sacramento da salvação e fez a clara distinção entre o Pai e Filho, mas muitas vezes identifica o Filho com Espírito Santo. Na Igreja entra-se mediante o batismo: renascer pela água para receber a vida. A Igreja atual compreende também os pecadores, mas no momento da parusia será purificada.

3.4. O Batismo

Ninguém é admitido à Igreja se não receber o batismo: por isso, é que a Torre está construída sobre água (visão III). A nona parábola chama o Batismo "Selo”: enquanto o homem não se leva em si mesmo o nome do Filho de Deus está morto; mas quando recebe o Selo, deseja-se da morte para revestir a vida. Selo, portanto, é a água do batismo. É, portanto, pelo ministério destes Apóstolos e doutores que os mortos receberam a vida e conheceram o nome do Filho de Deus.

4. A Ética

No campo ético ou moral, o Pastor de Hermas distingue entre obras obrigatórias e superrogatórias, e entre estas mencionou o jejum, o martírio e o celibato. Considera lícitas as segundas núpcias. É muito venerado na antiguidade cristã. O Pastor de Hermas chegou a ser contado entre os livros inspirados da Escritura. Nas segundas núpcias, contrariamente a um grande número de escritores eclesiásticos dos primeiros tempos, Hermas enumera sete (7) virtudes a saber: a Fé, a Continência, a Simplicidade, a Ciências, a Inocência, a Reverencia e o Amor. São representadas por sete (7) mulheres, símbolo que terá grande importância na arte cristã. Para Eusébio e Orígenes era o mesmo Hermas que dizia S. Paulo citando (Rm16, 14), a mulher chamada Rode. Mas adiante Hermas diz que «o adultério não é apenas macular o corpo, que vive como os pagãos, também comete adultério» Locus citatus. No nono mandamento (capítulo 39), em termos éticos recomendou a fé e a penitência aos homens. Com este mandamento de Hermas há um pouco de relação com a passagem bíblica de São Mateus, quando Jesus disse «pedi e vos será dado; batei a porta e vos será aberto; pois todo o que pede recebe; o que busca acha e ao que bate a porta se abrirá» (Mt 7,7-8).

5. APRECIAÇÃO CRÍTICA

Bom, a obra é interessante na vida dos fiéis, porque ela trata da Penitência e na linguagem mais vulgar da Reconciliação. Isso faz-me lembrar que mesmo a nível familiar todas vezes que cometermos erros ou falhas aos nossos pais ou mesmo aos nossos próximos temos que pedir o perdão das nossas culpas. Hoje como hoje precisamos de uma grande evangelização deste Sacramento, parece-me que são pouquíssimos que vão ao penitenciário ou que sabem pedir desculpas depois de errarem mesmo com ou sem ter em conta.

6. CONCLUSÃO

Para terminar este trabalho que falou sobre o "Pastor de Hermas" vida, a obra e pensamento, importa salientar que a obra é muito vasta porque tem 114 capítulos, que se divide em três partes: Visões, que de forma sumária tratam da Igreja; Preceitos falam de mandamentos em relação a Deus e ao próximo e as Parábolas que transmitem os conselhos para o aperfeiçoamento da vida de cada um de fazer sempre a vontade do Pai.

A obra é linda e rica em conteúdo. Também tivemos algumas dificuldades de percepção. A obra em si trata da Penitência. Hermas disse que os pecados cometidos depois do Batismo têm acesso à Penitência ou Reconciliação e recomendou-nos a fidelidade em Deus.

Hermas teve a missão de chamar todos os cristãos à penitência que urge, porque no tempo presente se encontra a última oportunidade, tal é o argumento intrínseco de uma carta do céu entregue pela Igreja.

BIBLIOGRAFIA

NAUTIN.P in Dicionário patrística e de Antiguidade cristã, Editora Vozes, Petrópolis 2002.
FIGUEIREDO. A. F, Curso de Teologia patrística II, Editora Vozes, Petrópolis, 1984.
ALTANER. B, STUIBER. A Patrologia: vida, obra e doutrinas dos padres da Igreja, Edições Paulinas, 19882.
COELHO. L. A. Enciclopédia verbo Luso-Brasileira de cultura, Edição séc. XXI, Vol. 14 Editorial Verbo, Lisboa/São Paulo, 2000.
BAUER. B. J, in Dicionário de Teologia Bíblica, Vol. II, Edições Loyola, São Paulo, 19884.
FARIAS. J. J. Introdução à Teologia Patrística, Lisboa 1997.
FRANGIOTTI, R. A Patrística dos Padres da Igreja, Edições Paulinas, São Paulo, 1995.


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XI. "UMA UTOPIA QUE FUNCIONA"

O Cristianismo não falhou; ainda não foi tentado. (Chesterton)

Como compreender o inesperado sucesso do Cristianismo em todo o âmbito do Império Romano e mesmo fora de suas fronteiras orientais? Como compreender a extraordinária expansão de comunidades? O segredo já está em Hermas. O Cristianismo rejeitou desde cedo grandes utopias e concentrou-se em projetos muito concretos. Os estrangeiros que chegavam a Roma e a outras grandes cidades podiam contar com um serviço cristão de hospitalidade. Hermas louva os bispos que organizam esse tipo de serviço primário. Eram convidados a comer à mesma mesa. Alimentos eram levados para viúvas necessitadas e órfãos. Havia comunidades que organizavam um serviço regular de alimentação e hospedagem para necessitados, viúvas e órfãos e mantinham uma caixa de ajuda mútua para casos de urgência. Como escreve Hermas, as pessoas ofereciam donativos em gêneros alimentícios nos dias de jejum. Um serviço bem organizado era o do enterro de falecidos, não só da comunidade, mas da vizinhança em geral. Compravam-se terrenos para enterrar os mortos. Os cemitérios cristãos aceitavam da mesma forma enterrar pagãos. Quando alguém caía doente, podia contar com visitas regulares e até, nos melhores casos, encontrar um lugar tranquilo para se recuperar. Na hora de interrogatórios pelas autoridades, os cristãos se davam mutuamente apoio moral. Procuravam também manter um alto astral por ocasião de 'pogroms' e outras investidas de hostilidade por parte de grupos e pessoas. Havia um serviço de visita aos presos. Segundo Hermas insinua, havia também um serviço de amparo psicológico para os que, desesperados, tentavam o suicídio ( Comp. 10,4.3; p. 273). Assim a comunidade cristã local era, no dizer de Hermas, um 'salgueiro' que protegia muita gente, cristãos e pagãos, na amplitude de sua sombra (Comp. 8,1; p.234). Eis o segredo do sucesso do cristianismo.

É um engano pensar que o cristianismo do século II se espalhou por meio de um movimento organizado de evangelização. Devemos esperar até o século III para ouvir falar formalmente de um missionário explícito. Nesse ponto, costuma-se cometer um anacronismo, ou seja, projetam-se métodos posteriormente usados pela Igreja naqueles séculos primordiais. Como escreve o filósofo romano Celso por volta do ano 170 d.C., os cristãos do século II eram tímidos e viviam nos setores segregados da sociedade, entre escravos, libertos e trabalhadores livres. Não imaginemos, pois, um cristianismo que vence pelo testemunho destemido de mártires, pela santidade heroica, pelas virtudes extraordinárias. A realidade não corresponde a esses sonhos triunfais, ela é bem modesta. Hermas se confessa medroso e inseguro, um homem normal. O cristianismo do século II é uma "utopia que funciona". Por que não funcionaria esse tipo de cristianismo hoje?"

Extraído do livro "Hermas no topo do mundo"- leitura de um texto cristão do século II - Eduardo Hoornaert, Ed. Paulus, 2002


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