50 ANOS DO CONCÍLIO VATICANO II - Página 1

Iniciamos aqui, em preparação à comemoração do cinquentenário do Concílio Vaticano II, uma série de postagens falando deste que foi o maior evento da Igreja no Século XX. Serão artigos, entrevistas, notas, links, etc., de diversos autores e de diversas correntes teológicas. Nossa intenção é fornecer subsídios para o estudo, reflexão e meditação sobre o evento "Concílio" e sua influência e projeção nestes 50 anos. Começamos apontando links para duas páginas de nosso site "Terra de Imaculada"; o primeiro para a página "Concílios", onde temos uma breve explicação do que seja um "Concílio Ecumênico da Igreja Católica", com a relação dos 21 Concílios já realizados e as matérias tratadas em cada um deles; o segundo, para a página "Documentos do Vaticano", na qual, temos os 16 documentos documentos produzidos pelos "Vaticano II",  além de artigos a eles referente, alguns dos quais serão aqui postado e ainda outros  Documentos da Santa Sé. Esperamos, com isso, ajudar na reflexão para esta importante comemoração.



Entrevistas concedidas ao Instituto Humanitas Unisinos - IHU e publicada em suas revistas (http://www.ihu.unisinos.br/):

A Igreja e a revolução cultural de 1968
Entrevista com Giancarlo Zizola
Giancarlo Zizola, jornalista e ensaísta italiano, considerado um dos maiores vaticanistas de seu país.
IHU On-Line - Como o senhor se transformou num “vaticanista”? Por que foi chamado por João XXIII e qual foi sua percepção da experiência do Concílio em Roma?
Giancarlo Zizola- Em Roma, reinavam ignorância e indiferença. O anúncio do Concílio tinha suscitado a imediata preocupação da Cúria romana. Foi precisamente para enfrentar esta posição de desinteresse, prenúncio da falência do projeto, que o Papa João XXIII precisava organizar um consenso no mundo católico. Ele me chamou a Roma do Vêneto porque pensava que os jornais católicos italianos (que então eram nove) necessitassem de um jovem jornalista que se ocupasse especialmente de converter os espíritos à idéia do Concílio.
IHU On-Line - Como descreveria o movimento gerado na Igreja durante e depois do Concílio Vaticano II?
Giancarlo Zizola - A história dos concílios ensina que a recepção durou muito tempo. As transformações no campo da cultura não ocorrem com um golpe de decreto-lei. É preciso considerar a complexidade do mundo católico, do ponto de vista das suas múltiplas tradições espirituais e sociais. No que se refere ao Vaticano II, o problema da realização foi complicado por causa do evento de 1968, isto é, por causa da revolução cultural generalizada, cósmica, rápida e profunda, que envelheceu a plataforma das inovações do Concílio, tocando o subsolo cultural e filosófico da fé. Em segundo lugar, o Concílio foi o ponto de partida para uma concatenação de retomadas identitárias do cristianismo em suas várias regiões, da África à Ásia e à América Latina. Isso deu vida a ulteriores disseminações. A teologia de que se nutrira o Concílio era de marca amplamente européia. A liberdade religiosa era filha do catolicismo americano (o teólogo Courtney Murray, sobretudo). Após 1968, surgiu e se difundiu a teologia da libertação na América Latina. O estatuto da liberdade cristã não havia sido pensado no Concílio, como começou a ser pensada depois a teologia da libertação. Por conseguinte, parece-me que o problema principal do Concílio é que os padres, sob a inspiração divina, lançaram a Igreja ao encontro de seu tempo histórico, mas este movimento foi recíproco e bem cedo também o tempo histórico começou a falar à Igreja, a qual teve então medo do movimento que ela mesma havia iniciado.
IHU On-Line - Você acompanhou os papados desde João XXIII. Como considera a característica de cada sucessor de Pedro e o ambiente eclesial que eles criaram?
Giancarlo Zizola - A Igreja pôde contar com uma série de papas gigantescos. Direi que o Papa João foi um profeta, tradicional, mas não tradicionalista. Queria reconduzir a Igreja à sua missão espiritual, voltada a todos os povos, sem preclusões ideológicas. Paulo VI era um intelectual aberto, queria as reformas, e o seu mérito foi de ter posto o Concílio dentro da instituição. Entretanto, teve que prestar contas aos resistentes conservadores, que prenunciavam o risco do cisma (e o criaram com o movimento do tradicionalismo de Lefebvre). Quanto a Wojtyla, com ele a Igreja voltou atrás, para relançar o esquema da cristandade forte contra a modernidade, abandonando o esquema conciliar da saída da cristandade para um cristianismo minoritário de testemunho. Agradava-lhe a ilusão midiática das massas. Em alguns campos, porém, foi mais longe que o Concílio, principalmente na obrigação cristã pela paz e pelo diálogo com as religiões mundiais.
IHU On-Line - Quem ganhou e quem perdeu no Vaticano II sob a ótica teológica? E, em sua visão, houve alguma nova derrota que não se manifestou durante o Concílio?
Giancarlo Zizola - Todo Concílio tem seus limites, mas a questão do Vaticano II é se a Igreja Católica reconhece o significado permanente deste paradigma de reforma. Eu penso que, em alguns aspectos, o limite do Concílio foi a tentativa de relançar a missão temporal da Igreja, de modo mais moderno, enquanto o quadro teológico do Concílio estava baseado na natureza espiritual da Igreja e em sua presença na história como peregrina, sem poder competitivo com os poderes mundanos.
IHU On-Line - Quais os aspectos do Concílio que João Paulo II mais afirmou e quais os que considerou irrelevantes ou quais os que negou?
Giancarlo Zizola - Pôs de lado a colegialidade episcopal, a teologia das igrejas locais, e tornou a valorizar o papel político da Igreja, inflou o papel centralizador e totalitário do papado romano, desprezou o papel dos leigos e das mulheres na Igreja, substituiu a teologia da misericórdia com o retorno da intransigência no campo moral, abriu as portas à invasão anárquica dos movimentos, com graves repercussões sobre o equilíbrio interno da Igreja Católica, fez prevalecer os interesses políticos da Santa Sé sobre preocupações ecumênicas nos confrontos com o mundo ortodoxo. Todavia, como eu disse, ele também pôs em relevo o pluralismo dos meios de salvação, deu um golpe pesado no infalibilismo, iniciando o processo dos mea culpa pelos erros históricos da Igreja, e ensinou ao povo católico que é preciso dizer não ao Deus da guerra e é necessário não só pregar a paz, mas também mobilizar-se contra qualquer guerra.
IHU On-Line - O teólogo Ratzinger, que participou do Concílio, o cardeal Ratzinger que foi Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé e Bento XVI seriam a mesma pessoa ou podemos falar de diversas etapas da mesma pessoa? Como caracteriza cada um?
Giancarlo Zizola - Segui atentamente a carreira de Ratzinger e minha conclusão, a favor da qual argumentei, no livro Bentoit XVI ou le mystère Ratzinger (Bento XVI ou o mistério Ratzinger), Desclée de Brouver. Paris: Seuil. 2005, o seguinte: o campeão da batalha contra o relativismo deu prova de muitas mudanças durante a sua vida e de uma notável capacidade de adaptação. Ele tem o mérito de haver denunciado o erro estratégico de direcionar novamente para a “sociedade cristã” ou para um cristianismo de massa, e por isso sou de opinião que ele, como Papa, impulsionará o pedal das reformas e do retorno a um cristianismo de interioridade, não mais de ostentação temporária e de sucessos exteriores.
IHU On-Line – O senhor conhece em profundidade o Vaticano. É possível mudar esta estrutura de poder? Não tem sido possível pôr em prática as sinalizações do Concílio em tal direção? Seria necessário um novo Concílio?
Giancarlo Zizola - Estou convencido, há tempo, de que uma grande assembléia conciliar seja de todo necessária para permitir às igrejas cristãs de retomar em profundidade a missão do anúncio do Evangelho num mundo em radical transformação cultural e política.
IHU On-Line - Qual foi a grande novidade da Constituição Gaudium et Spes (GS)? Até onde a Igreja da Europa conseguiu fazer-se presente na sociedade?
Giancarlo Zizola - A principal novidade, a meu ver, é que em tal constituição a Igreja foi convidada a levar a sério a história como lugar teológico, com o qual é necessário interagir, porque é rico de valores e de ensinamentos, repleto de apelos. Terminava, assim, a idéia de que a Igreja fosse uma societas perfecta, em si mesma auto-suficiente e acima da história.
IHU On-Line - As mudanças no cenário mundial, descritas na GS, 40 anos atrás, se modificaram. Quais são os maiores desafios da Igreja para ela estar presente no mundo atual?
Giancarlo Zizola - A globalização. A Igreja deve sair urgentemente da sua concha ocidental, como nos inícios saiu da concha mosaica, graças à genial estratégia apostólica de São Paulo, para estender-se no Mediterrâneo. Sair do Ocidente como limite geopolítico e cultural não significa assumir o desafio da inculturação plural do Evangelho, na África, Índia, China, Japão, etc. E aprofundar o diálogo com as grandes religiões mundiais e as grandes tradições espirituais (Islã, budismo, hinduísmo, confucionismo, etc.). O antigo quadro filosófico eurocêntrico da fé deve abrir-se ao enxerto em outras fontes culturais e espirituais, sem lesar a identidade essencial do Cristo morto por todos, no tempo e no espaço, e por todos ressuscitado, sem privilégios ou nenhuma exclusão. Isso é tanto mais necessário hoje para contribuir com a cura do Ocidente do ódio teológico e do perverso, patológico choque de civilizações que o está precipitando no próprio cupio dissolvi [desejo dissolver-me]. E ainda mais necessário, se pensamos no profundo movimento em curso que direciona a imensa humanidade do Oriente para o Ocidente, um movimento ao qual talvez somente a Igreja pode oferecer uma resposta válida e com perspectiva, uma resposta que não pode ser confiada apenas aos interesses econômicos e às armas.
IHU On-Line - Por onde passa o diálogo entre sociedade e Igreja atuais? Em que aspectos cada um deveria deixar-se interpelar pelo outro, para um diálogo eficaz?
Giancarlo Zizola - Creio que o mundo contemporâneo tenha absoluta necessidade de esperança. Há demasiado cansaço, demasiada resignação diante das degradações do homem e do ambiente como puro objeto de mercado. A Igreja deve apresentar-se a este mundo enfermo como Pedro diante do paralítico e dizer-lhe: “Eu não tenho nem ouro, nem prata, mas o que tenho te dou: levanta-te e caminha”.
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“A crise européia é um novo lugar teológico”

Entrevista com José Maria Vigil
Vigil é licenciado em Teologia pela Universidad Pontificia de Salamanca (1972-73). Na Universidade de Santo Tomás de Roma (1973-74), obteve a licenciatura em Teologia Sistemática.
IHU On-Line - O Concílio Vaticano II foi expressado na sua totalidade?
José Maria Vigil - É óbvio, e mundialmente sabido, que não, que o Concílio não pôde se expressar plenamente. Encontrou as primeiras dificuldades com os setores conservadores da Cúria vaticana no tempo de Paulo VI e depois a oposição do próprio João Paulo II.
Os historiadores deverão dizê-lo, mas eu acho que, ao menos em relação dos grandes concílios da Igreja, não houve, na história, um outro caso de concílio que fosse desfeito pela própria Igreja. Foi o Concílio que suscitou maior e mais entusiasta aceitação da parte do Povo de Deus, e também a maior resistência do próprio povo ao movimento de “restauração”, implementado pela hierarquia contra ele. Isso tudo já é história, religiosa e civil, pública e conhecida até pela sociedade civil.
IHU On-Line - Necessita ser retomado ou há necessidade de um novo Concílio?
José Maria Vigil - Sim e não. Sim, necessita ser retomado o Concílio, com certeza, porque o Concílio está aí, está na fé e no coração de toda uma geração que não pode voltar atrás. O Concílio não foi um livro, nem uma teologia, nem algumas idéias… Foi uma mudança epocal, foi um novo paradigma, uma nova forma de crer, não impulsionada por alguns teólogos ou bispos, mas por um novo Pentecostes… Isso não é reversível.
O Concílio, então, está aí: reprimido, esquecido, marginalizado por muitas autoridades, mas está aí nos corações e na fé do povo e de infinidade de agentes de pastoral. Muita hierarquia não quer ver, nem escutar; olha para outro lugar. É uma situação de esquizofrenia na Igreja, que só será superada quando se voltar a reconhecer e acolher o que o Espírito fez pela Igreja no Concílio.
Entretanto, também não há necessidade imediata de um novo Concílio, porque agora mesmo não é possível, nem conveniente. Essa situação de esquizofrenia continua, e não é um ambiente sadio para fazer um Concílio. Sobretudo porque, durante o último quarto de século, os bispos católicos foram eleitos confessadamente conservadores, reservando a representação e o governo da Igreja a só uma mentalidade, excluindo precisamente os cristãos mais representativos do espírito conciliar. Nesta situação, o resultado de um concílio «normal» seria só um agravamento do mal. O que se deveria fazer seria uma «transição» que prepare um ambiente propício, um «processo conciliar», como dizem alguns.
IHU On-Line - Quais os aspectos mais marcantes do documento Gaudium et Spes?
José Maria Vigil - Paulo VI falava do Concílio dividido em duas vertentes: a Igreja para dentro e a Igreja para fora. A GS é o documento emblemático desse olhar da Igreja para fora. E seu aspecto mais marcante foi, sem dúvida, a nova atitude da Igreja perante o mundo, já não mais de distância e desconfiança, mas de amor, proximidade, compreensão e otimismo. Isso é como uma nova lente que faz perceber de baixo uma outra luz, e faz brotar no coração um outro jeito, uma outra atitude total. A GS representou uma nova valoração do mundo, da atividade do ser humano nele, da ciência, da razão, da sexualidade...
IHU On-Line - Quais as limitações da GS?
José Maria Vigil - As limitações foram daquele momento. O Concílio tratou de recuperar o tempo perdido, e fez o que pôde, e pôde muito. Todavia, logo ficou superado, precisamente por sua aplicação na América Latina, com a aparição da teologia da libertação. Logo pôde se ver que os pobres não estavam presentes na perspectiva conciliar como sujeitos. O diálogo foi estabelecido com a primeira “ilustração”, mas não com a segunda. A perspectiva histórico-liberadora não foi ainda descoberta no Concílio... Limitações então. Mais tarde veio a experiência forte do pluralismo religioso, num mundo mais e mais mundializado… o que está obrigando a teologia (do pluralismo religioso) a reler o cristianismo todo. Por exemplo, o “inclusivismo”, que foi o grande passo para a frente que o concílio deu (depois de 19 séculos de exclusivismo), ficou agora pequeno, e não podia ser de outra forma, porque a história continua. A mudança que fez o Concílio foi enorme, mas a que está vindo vai sê-lo muito mais...
IHU On-Line - Que diferenças destacaria, tendo em vista sua experiência de vida, entre a presença da Igreja no mundo na América Latina e na Europa?
José Maria Vigil - A diferença agora é marcante, muito mais destacada que no tempo do Concílio. Naquela época, várias nações européias eram muito religiosas e católicas. A Holanda, a do famoso «catecismo holandês», era massivamente católica; hoje são menos de 40% de católicos. A Espanha possuía mais de 90% de católicos, mas hoje a Igreja espanhola figura nos rankings de catolicidade em último lugar na sua sociedade, e o país aparece como o de menor credibilidade da Europa. E não falemos da Polônia ou da Alemanha, países natais dos dois últimos papas. A Europa aparece, em geral, hoje, como um continente que foi cristão e que voltou as costas à fé cristã. A revista teológica Alternativas, de Manágua, acaba de lançar um número monográfico sobre este tema, perguntando se esta crise européia não é um «novo lugar teológico»...
Há alguns meses, teólogos e teólogas de vários países americanos nos reunimos em São José de Costa Rica, primeira em seu gênero, nos perguntando se este problema europeu é só conjuntural, próprio só dessa região, ou vai ser o futuro que virá também para a América Latina... Na revista Concilium, sobre O cristianismo em crise, Eduardo de la Serna diz da Argentina que isso já está começando a acontecer na América Latina: não é futuro, é presente!, mesmo que só incipiente… Tempo ao tempo. Não só a Igreja, nem somente o cristianismo, mas todas as religiões estão em crise.
IHU On-Line - Quais são os principais desafios que o mundo apresenta hoje à Igreja?
José Maria Vigil - Dizendo rapidamente são dois os desafios maiores: a justiça e a história. A justiça é o problema eterno, o problema de fundo, agravado a cada dia que passa: os pobres – toda a classe de pobreza- e a sua libertação. A história é o outro grande problema: a encarnação nela, a vivência da «hora» histórica, sem atrasos, às vezes, de vários séculos... O Concílio quis ganhar proximidade, encurtar a distância, mas nestas duas décadas esta aumentou. Sobre a história, destacaria um problema mais relacionado ao futuro do que propriamente á história; o que está em crise já não é a Igreja, nem o cristianismo, mas a própria religião, todas as religiões, como religiões... O Concílio não pode nem intuir este problema, que para nós apenas agora está começando a ser, a cada dia, mais visível...
IHU On-Line - Como estão contempladas na GS as minorias: mulheres, afro-descendentes, nações indígenas, imigrantes, etc.?
José Maria Vigil - Estas minorias praticamente não figuram na GS, não tiveram o tratamento que hoje vemos que merecem. Entretanto, não só essas minorias foram – digamos - esquecidas ou marginalizadas: foi o terceiro mundo todo que esteve ausente. É certo que os bispos dele – numa proporção muito menor da atual - estiveram lá, mas não tiveram quase voz. Não porque lhes fosse negada, mas porque não era ainda sua hora. Tomaram a palavra sobretudo os bispos do primeiro mundo, e os temas tratados foram os trazidos por eles. Foi um Concílio ainda muito europeu. A própria teologia da libertação não deu entrada plena a estas minorias – os chamados “novos sujeitos emergentes” - até a sua segunda época, lá pelos anos 1980... muito menos devemos procurar sua presença na GS. Foi uma limitação própria do momento histórico.
IHU On-Line - Como foi sua própria experiência de acompanhamento do Concílio e suas novidades na Igreja?
José Maria Vigil - Posso dizer que o Concílio Vaticano II faz parte de minha vida pessoal, como um dos acontecimentos que mais profundamente a marcaram. Sou daquela geração que chegou à maioridade da fé com o próprio Concílio. Tivemos a fortuna de ser formados na experiência religiosa anterior, no tempo de Pio XII, quando éramos meninos e adolescentes… Ou seja, pudemos conhecer o cristianismo preconciliar, que é quase o mesmo cristianismo medieval... No Concílio, a Igreja mudou em sete anos mais que nos sete últimos séculos. Por isso, para nós, os convencidos da mudança epocal que o Concílio supunha, a sua implementação constituiu-se na nossa tarefa para toda a vida, a nossa vocação. Foi maravilhoso!
O acompanhamento do pós-concílio tem sido diferente, doloroso com certeza, mas cheio de esperança. Porque, como disse Neruda, «poderão cortar todas as flores, mas não poderão deter a primavera». Nem o inverno mais longo...
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O Concílio, D. Helder e a Igreja no Brasil
Entrevista com Ernanne Pinheiro
Pinheiro estudou Teologia em Roma, na Pontifícia Universidade Gregoriana (PUG) nesse período e trabalhou diretamente com Dom Helder Camara, um dos maiores articuladores do espírito da Gaudium et Spes, no Brasil.
IHU On-Line - O senhor estudou em Roma durante o Concílio. Qual era o clima?
Ernanne Pinheiro - Estava em Roma como estudante de Teologia, na Universidade Gregoriana, durante as duas primeiras sessões do Concílio Vaticano II. Durante a terceira sessão, trabalhava numa metalúrgica, na França, morando com uma equipe de padres operários. Na quarta sessão, já me encontrava no Brasil, na minha diocese de origem, Limoeiro do Norte, Ceará.
O clima em Roma, na fase conciliar, era inusitado. Ninguém tinha experiência de Concílio. No entanto, tudo respirava renovação. O sonho do Papa João XXIII se realizava ao fazer entrar ar fresco na Igreja, sacudindo a poeira da história. A cidade de Roma vestia roupa nova ao receber os bispos de todos os continentes e também personalidades famosas no campo da teologia ou da vivência missionária. A Igreja Católica se expressava na colegialidade episcopal.
Despertava grande esperança nos bispos a presença, em Roma, de teólogos marcantes da Igreja Católica, tais como Yves Congar, Henri de Lubac, Karl Rahner, Hans Kung e outros. Mas não só; estavam presentes outros grupos significativos: os padres operários da França, o famoso padre Paul Gauthier que vinha diretamente da Palestina, onde era padre operário nas pegadas de Jesus de Nazaré; Roger Schutz e os irmãos de Taizé com o diálogo ecumênico; os leigos e leigas da JOC, da JAC, da JEC. Um verdadeiro Pentecostes.
IHU On-Line - Como jovem estudante, que esperanças despertou o Concílio?
Ernanne Pinheiro - Vivíamos em Roma momentos de expectativa e desafios. Algumas perguntas vinham à tona: para onde vai a Igreja? Como respondermos ao momento de Deus? Procurávamos acompanhar, com muito interesse, o desenrolar dos acontecimentos. Morávamos no Colégio Pio Brasileiro, que hospedava alguns dos bispos brasileiros, ao lado da Domus Mariae, casa onde estava alojada a grande maioria do episcopado brasileiro. Todos os dias, após o almoço, tínhamos o privilégio de um encontro com o arcebispo de Vitória do Espírito Santo, Dom João Batista Motta; ele nos fazia uma síntese do ocorrido na aula conciliar. No final da tarde, podíamos ter acesso às conferências para os bispos brasileiros, na casa vizinha, realizadas pelos teólogos presentes em Roma. Descobertas teológicas, experiências missionárias e ecumênicas iam criando exigências específicas para a renovação eclesial. A cada sexta-feira, havia um encontro mais reservado, sobre a Igreja e os pobres, no colégio belga - entre bispos, teólogos, padres operários, leigos e leigas, que já viviam a opção pelos pobres. Este clima dinâmico desafiava em nós, jovens, a sede de um engajamento mais radical, mais evangélico. Neste contexto, me dispus, terminado o curso de teologia em Roma, fazer um ano de estágio na França, como operário metalúrgico, morando com os padres da “ Mission de France”.  Além de conhecer de perto a vida dos operários (dez longas horas de trabalho por dia), tive a oportunidade de me aproximar da organização sindical, muito forte nesta fábrica de metalurgia, com duas centrais sindicais de tendências bem nítidas - cristã e marxista. Aos sábados, a nossa equipe de vida, formada de cinco membros, dos quais três eram, há muitos anos, padres operários, fazíamos revisão de vida com momentos fortes de oração e reflexão sobre a nossa missão no mundo do trabalho. Este estágio foi a minha preparação imediata para o sacerdócio. Três interpelações do mundo operário me marcaram profundamente: a importância da perspectiva dos pobres na vida pastoral, o senso de gratuidade nas atitudes e a dimensão da esperança.
IHU On-Line - Como foi vivido o pós-concílio? Quais as maiores dificuldades e resistência que se despertaram?
Ernanne Pinheiro - Vivi o pós-concílio no Brasil. Fui ordenado padre no dia 05.12.65, três dias antes do término do Concílio. No primeiro ano de padre, fiquei como professor do Seminário da Prainha, em Fortaleza-CE e como animador de pastoral dos seminaristas. Todo o esforço, durante o ano de 1966, foi despertar nos seminaristas e nos cristãos, leigos e leigas, o interesse pelos grandes documentos do evento eclesial do século. Para tanto, os padres do Seminário e os leigos e leigas da JUC, Juventude Universitária Católica, prepararam uma semana do Povo de Deus, em Fortaleza, animada pela metodologia do Movimento de Educação de Base (MEB) – por meio de programas de rádio e de dinâmicas de grupo. Nesta fase inicial, havia menos resistências às grandes linhas oferecidas pelo Concílio do que nos anos posteriores. A autoridade dos bispos reunidos, em Roma, dava a motivação para a recepção, mesmo sem muita percepção das exigências pastorais decorrentes. Chamavam mais a atenção, no início do processo, os aspectos mais visíveis: a liturgia em português, os padres sem batina, a missa com o celebrante de frente para o povo...
De 1967 a 1985, vivi o período pós-conciliar, em Recife, trabalhando com Dom Helder Camara. Aí as resistências mesclavam questões eclesiais com questões ideológicas no período da ditadura militar.
IHU On-Line - Como a Igreja no Brasil foi encarnando a Gaudium et Spes?
Ernanne Pinheiro - Na minha leitura, a Constituição Pastoral Gaudium et Spes teve um papel primordial para a Igreja Católica no Brasil. Mais do que um documento conciliar com os fundamentos para a ação da Igreja em diálogo com o mundo moderno, a Gaudium et Spes legitimava as experiências eclesiais de compromisso social na Igreja do Brasil. Lembramos algumas das suas expressões: o Movimento de Educação de Base (MEB) - com suas pequenas comunidades, relacionando educação e conscientização, as várias iniciativas da JAC nas comunidades rurais, a animação dos sindicatos rurais, o conceito de desenvolvimento integral no Movimento de Natal, a valorização dos pobres como sujeitos da história e da evangelização... Nesse contexto, surgem as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), as pastorais sociais, a evangelização libertadora. Vivíamos nos anos 1960 e 1970 uma realidade de dupla face no compromisso social da Igreja: éramos motivados pela renovação eclesial do Vaticano II e atropelados pela situação da ditadura militar que considerava todo este trabalho uma subversão da ordem. Esta dialética criava um clima de medo, é verdade, mas exigia uma metodologia de formação na ação, chegando a forjar cristãos sólidos com testemunhos marcantes. Devemos reconhecer, com alegria, a forte atuação profética da CNBB, nesse período, em defesa dos direitos humanos.
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A GS valoriza a igualdade da pessoa e da sociedade
Entrevista com Peter Hunnemann
Peter Hünermann é professor emérito de teologia dogmática na Université de Tübingen, na Alemanha. É especialista em Eclesiologia, Teologia dos sacramentos e Cristologia.
IHU On-Line- Qual foi a maior dificuldade na redação da Gaudium et Spes e os aspectos que mas suscitaram polêmica antes e depois do Concílio?
Peter Hünermann- A maior dificuldade na redação e na recepção da GS era o documento em seu próprio caráter. A comissão e as subcomissões estavam convencidas de que se necessita um novo caminho para abordar a tarefa de caracterizar a posição da Igreja no mundo moderno. Até o Vaticano II, a doutrina social se fundou sobre uma base filosófico-ética para aclarar problemas sociais e formular normas. A Igreja em si mesma foi considerada como uma entidade sobrenatural, estruturada segundo as normas transmitidas pelo Senhor e pelos apóstolos. Produziu-se, assim, uma justaposição “igreja – sociedade civil/Estado”, sociedade civil e Estado, estando sob a ética filosófica, a lei natural, a Igreja, estando sob a lei do Evangelho. Com o Vaticano II, se abre uma nova visão: a Igreja, sacramento e instrumento da unidade de Deus com os homens, da unidade de todo o gênero humano. Em conseqüência, é preciso determinar a relação Igreja – sociedade civil/Estado/humanidade de uma nova maneira!
IHU On-Line- Mas, como?
Peter Hünermann- Após muitíssimas discussões, consultas e intercâmbios – entre outros com o Conselho Mundial das Igrejas, em Genebra, que nesta época trabalhava sobre problemas muito semelhantes – se encontrou uma solução. Depois de uma descrição empírica dos grandes problemas da sociedade moderna, a primeira parte do documento se concentra em três questões: a dignidade da pessoa humana, a comunhão dos homens, a atividade humana.
IHU On-Line- Por que estes três temas?
Peter Hünermann- A sociedade moderna aceita – em teoria – com grande unanimidade a dignidade humana como valor incondicionado. Aceita também que a comunhão e o reconhecimento mútuo dos homens transcende os horizontes de utilidade, mercadoria, etc. Finalmente, a atividade humana não pode ser reduzida à produção. Está ligada com a dignidade do homem e da sociedade. Partindo deste amplo consenso entre os homens – apesar de muito amiúde não estar realizado – os padres conciliares explicam como o evangelho aprofunda a visão da dignidade da pessoa, da sociedade e da atividade humana. A Igreja como sacramento do Senhor abre uma visão nova e radicalizada destas realidades centrais da vida humana. É lógico que assim a Igreja e sua missão já não se encontram em justaposição estéril com a sociedade civil, estatal, mundial. Em vez disso, estão todas mescladas e comprometidas em tudo isso sem perderem seu próprio perfil, lutando por um mundo novo e melhor. Na segunda parte da GS, se trata de problemas fundamentais dos anos sessenta do século passado: a dignidade do matrimônio e da família, o desenvolvimento da cultura, a vida econômica e social, a vida das comunidades políticas, da paz e do desenvolvimento da comunidade dos povos. Todos esses problemas são sempre tratados no marco referencial da primeira parte da GS. Certamente houve padres conciliares que não entenderam esta nova visão. Consideravam a Igreja como antes, em justaposição com a sociedade e a vida pública. Mas, o Papa, como a grande, grande maioria, aprovou o texto definitivo.
IHU On-Line- Quais as afirmações a reelaborar?
Peter Hünermann- Certamente a GS representa – sobretudo na segunda parte – a problemática dos anos 1960. É preciso adaptá-la. Já não vivemos mais na situação da guerra fria. É preciso refletir e solucionar o problema do terrorismo. A problemática econômica está, hoje, marcada pela globalização, etc. Ademais, a GS diz expressamente que é preciso aplicar os traços fundamentais e os princípios à situação dos diversos continentes e culturas (GS 91). É importante a recepção da visão fundamental: a Igreja está em interação e penetração com a sociedade e com os problemas básicos dos homens – sem que se produza uma nivelação ou mescla entre Igreja e sociedade.
IHU On-Line- Que teólogos, bispos ou leigos tiveram uma contribuição fundamental durante a elaboração do Documento e a realização do Concílio em geral?
Peter Hünermann- Houve um grande número de Bispos, teólogos e leigos que contribuíram com o processo muito árduo da elaboração da GS.Entre os Bispos é preciso mencionar, entre outros, o próprio Paulo VI, Suenens, Lercaro, Léger, Liénart1, Acel, Hengsbach, Schröffer, Guano, Pavan, Helder Câmara, Larrain Errázuriz, McGrath, Wojtyla. A lista de teólogos colaboradores é muito ampla. Destacam-se, entre outros, Tucci, de Riedmatten, Glorieux, Houtart, Calvez, Häring, Cerfaux, Lebret, Congar, Philips, Daniélou, Moeller, etc., etc.
É interessante que o professor Ratzinger não teve uma relação mais estreita com este documento. Todavia, como Cardeal, manteve uma posição relativamente crítica em suas publicações. João Paulo II, por sua vez, vivia com este documento. É o texto conciliar mais citado em suas publicações.
IHU On-Line- Há necessidade de fazer uma releitura do mundo contemporâneo à luz da GS?
Peter Hünermann- Atualmente, se necessita de uma análise crítica da posição da Igreja no mundo e nos diversos continentes e culturas, utilizando a GS como marco referencial. É certo que a teologia teria um enorme papel nesta revisão da vida eclesiástica. É certo também que, para uma tal iniciativa, se necessita da sábia liderança do episcopado em geral junto com o Papa. Ademais, uma tal revisão pressupõe iniciativas das conferências episcopais nacionais e continentais. A revisão – para superar um certo estancamento da Igreja – não se pode realizá-la sem uma ampla participação dos leigos, religiosos e religiosas, presbíteros e diáconos. Seria – sob o meu ponto de vista – a maneira mais séria de celebrar este grande acontecimento.
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