terça-feira, 12 de julho de 2011

Espiritualidade e compromisso

Transcrevemos aqui o excelente artigo do Bispo da Igreja Metodista Paulo Tarso de Oliveira Lockmann. Como se poderá verificar, podemos muito aprender com os irmãos de outras confissões cristãs. E verificar que tanto aqui, como acolá, o aprendizado e formação do rebanho é preocupação constante de seus pastores.  



Espiritualidade e compromissopor Rogerio Pereira da Silva — Última modificação 13/06/2008 16:13

Paulo Tarso de Oliveira Lockmann
Resumo
Esse artigo explora as estações marcantes da caminhada de Jesus segundos as narrativas dos evangelistas Marcos e Mateus com o objetivo de inspirar uma espiritualidade cristã como experiência mística que fortalece o compromisso e mobiliza para a missão.

Palavras-chave
Jesus – espiritualidade – missão – compromisso.


Paulo Tarso de Oliveira Lockmann é Bispo da 1ª Região Eclesiástica da Igreja Metodista, presidente do CIEMAL e secretário regional de Evangelismo do Conselho Mundial das Igrejas Metodistas. É mestre em Bíblia e doutorando na PUC do Rio de Janeiro.


Não há dúvida de que falar de espiritualidade no Novo Testamento é tratar da própria razão de ser deste livro.

O Novo Testamento é herdeiro de um plano salvífico, construído na história pelo Espírito de Deus, em espiritualidade.

A linguagem do Espírito é a linguagem da vida e do cotidiano com sua simbologia; é nesta vida que o Espírito se manifesta, atua e conduz, com vista à realização da Salvação na história dos homens e mulheres (cf. Ef 1.10).

A essência da espiritualidade bíblica neotestamentária se enuncia em Deus na forma de sua encarnação: Jesus Cristo (cf. Jo 1.14). No entanto, a espiritualidade neotestamentária tem seu prosseguimento na experiência posterior dos discípulos e da comunidade, na forma em que eles compreenderam Jesus e deram prosseguimento à Missão (cf. At 2.42-47).

Nosso texto não trabalhará muito o campo da palavra espírito – pneuma, mas, sim, estudará, exegeticamente, momentos de intensa espiritualidade e mística no ministério de Jesus. Isso por entendermos que a verdadeira espiritualidade se manifesta tanto na comunhão com Deus (Cf. Jo 5.19) como na submissão e fidelidade à missão dada por Deus (cf. At 5. 29-32).

A essência da espiritualidade de Jesus: do batismo à transfiguração.

É interessante notar onde começa o ministério de Jesus: junto a João Batista, ao povo e ao Rio Jordão (cf. Mc 1.9-11).

Depois do batismo o momento chave do ministério galileu de Jesus é a confissão de Pedro em Cesaréia de Filipe e a transfiguração no Hermon; [1] em ambos há um fato comum: a revelação de Deus que ocorre na resposta de Pedro e na voz de Deus (cf. Mc 9.2-8).

Analisemos um pouco o quadro no qual estes momentos de intensa espiritualidade são vividos e como o quadro se manifesta na narrativa.

A espiritualidade do deserto, que é demonstrada por João Batista do Evangelho de Marcos (cf. Mc 1.2-4), tem origem em circunstâncias históricas concretas: por uma forma de religiosidade marginal, no sentido de não ser aceita e legitimada pelo Templo e a classe sacerdotal. Tampouco, a espiritualidade messiânica do deserto (cf. Mc 1.2-3) buscava tal legitimidade; pelo contrário, rejeitava as formas oficiais do culto e interrogava, em sua austeridade, a ordem moral, política e econômica que a vida interna de Israel experimentava (cf. Mc 3.27). Pode-se perceber nisso uma semelhança com os movimentos proféticos do Antigo Testamento (cf. Is 1.10-17). Deste modo, podemos dizer que a espiritualidade é uma postura religiosa comprometida com o cotidiano de Israel e com sua transformação. Só entendida dessa maneira é que a pregação sobre o reinado de Deus, surgida da espiritualidade do deserto, adquire significado (cf. Mc 1.14-15).

Por que espiritualidade do deserto?
Erêmos – deserto ou lugar sem água. Esse é o local da negação da vida; não há sobrevivência para o homem no deserto; ali, o homem não tem nem como no que se apoiar. É o lugar da serpente, do escorpião e dos espíritos maus (cf. Mt 12.43-45). Mas é justamente nesse lugar de precariedade, onde o homem não tem como se auto-sustentar, que ele tem radicalmente de depender de Deus. Sim, é esse o lugar, na tradição bíblica, da história da Salvação, onde o homem experimenta mais de perto a dependência e a comunhão com Deus (cf. Ex 3.1-3; Ex 15.22; Js 5.6; Mc 1.2s; Mc 1.12s; Mc 6.33; Gl 1.17).

O batismo de Jesus
Um dos momentos de mais humanidade e espiritualidade é o batismo de Jesus. Nele, Jesus não se apresenta como o enviado do céu, para dar expressão ao movimento da espiritualidade do deserto de João Batista, mas, sim, ele se integra entre os marginalizados, para receber, juntamente com eles e com a mesma disposição, um batismo de conversão. “Ele vos batizará com o Espírito Santo” (Mc 1.8). Esta frase de João Batista evidencia o quadro profético em que Jesus surge e a característica que este quadro imprime à sua figura. Jesus, como Messias, não era tão somente alguém vindo sob a unção do Espírito de Deus, mas, sim, alguém capacitado a transmitir esta unção a todos que o seguem (cf. Mc 1.8). Essa característica aponta o eclodir de um novo tempo, a história dos homens passa a ser palco de um povo conduzido pelo Espírito de Deus. Para que a condução do Espírito? Exatamente para trabalhar na concretização do Reino de Deus, assunto a ser mencionado no versículo 15, logo após o batismo e a tentação no deserto.

“Tu és o meu Filho amado, em ti me comprazo”
A seguir é narrado um fato em que Deus é o protagonista: o Espírito de Deus desce sobre Jesus em forma de pomba (cf. 1.10), indicação de que uma nova criação era dali iniciada [2], a partir do Messias e da voz de Deus que por todos é ouvida (cf. Mc 1.11). É o Espírito e a Palavra criando uma nova ordem, como no princípio.

Esse intenso momento de espiritualidade a tradição da Igreja preservou como base da iniciação cristã. [3] Os correspondentes na vida da Igreja foram o Pentecostes e as cerimônias de batismo, experiências essas cheias de mística e espiritualidade.

A pergunta que nós colocamos hoje é: “Qual a conseqüência de tal momento de espiritualidade na vida de Jesus e, a seguir, na vida da Igreja?”

De acordo com o modelo de Jesus, o batismo cristão, assim como outros momentos de intensa espiritualidade, dá início a uma vida de serviço pelo caminho da solidariedade com os homens, nunca uma apropriação – individualidade. Imagine que frustração seria para o povo, para João Batista e para Deus se, após o testemunho de João, o testemunho de Deus e o batismo, Jesus voltasse para sua oficina de carpintaria em Nazaré!

Quem se converte e vive seu batismo abre-se ao diálogo com Deus, mas também com os seres humanos; abre-se para receber uma “palavra viva”. Foi esta a adesão de Jesus, após o batismo, adesão ao serviço aos seres humanos.

O batismo de Jesus indica também o caminho do deserto. É pelo Espírito manifesto no batismo que Jesus se dirige ao deserto (cf. Mc 1.12). O cristão, após o batismo, engaja-se em sua fé para mover-se no deserto e no vazio de segurança e recursos, não permitindo o embaraço de compromissos com uma ordem que não seja a do Reino de Deus; perpetue, nesse engajamento, a mística da espiritualidade do deserto.

Após o batismo de Jesus um novo Êxodo tem início na história [4], desde o deserto de Judá, passando pela Galiléia e desde aí a todas as regiões. Nós somos herdeiros e participantes desse Êxodo e espiritualidade comprometida com a construção do Reino e a conseqüente salvação dos homens.

A transfiguração (Mc 9.2-8)
Cercada de intensa espiritualidade, a transfiguração encerra, ao mesmo tempo, uma lição de radical compromisso.

É também um relato que apresenta uma das mais longas e acirradas discussões exegéticas. Há pelo menos três grandes linhas de interpretação para este relato.

Uma afirma que naquele momento a verdadeira morfê (= forma de Jesus) rompeu os limites da sua humanidade e revelou-se aos três discípulos. Modernamente, Lightfoot e J. Bernardin defenderam esta interpretação do relato; este enfoque tem sido chamado de interpretação doutrinal [5].

Outra linha afirma que apenas Pedro teve essa visão da transfiguração de Jesus e da presença de Elias e Moisés, e o que está por trás do relato de Marcos seria o relato de Pedro, o qual teria servido de base a Marcos e deste teriam surgido os demais relatos de Mateus e Lucas. Este tipo de interpretação é chamado de visionária. Meyer defendeu este tipo de interpretação tendo por base outros relatos visionários nas religiões orientais [6].

Finalmente, existe a chamada “interpretação simbólico-escatológica”, que conclui ser o relato uma lenda marcada de uma linguagem simbólico-escatológica, tomada da apocalíptica judaica contemporânea a Jesus. Este relato estaria, na verdade, ligado ao momento da ressurreição de Jesus e não ao ministério terreno como colocam os evangelistas. Welhansen, Bultmann, Bousset, Dodd e Lohmeyer seriam os principais adeptos desta interpretação [7].

Por que a alusão, acima, à história da interpretação do texto – algo que não foi feito, antes, com o texto do batismo? - A razão está em que impressiona o fato de que nenhuma das exegeses estabelece uma interpretação comprometida com a nossa vida e o cotidiano. A raiz de mística e espiritualidade é totalmente ausente nas interpretações deste texto.

A transfiguração: uma espiritualidade comprometida
Não resta dúvida de que o relato da transfiguração foi usado pela Igreja apostólica com um objetivo doutrinário, servindo para sublinhar a divindade de Jesus.

Hoje, quando lemos este texto, qual o uso que ele nos sugere? Primeiro, que podemos notar uma das raras preocupações de Marcos com a cronologia. A expressão Kai meta êmeras ex (= e depois de seis dias) vincula o acontecimento da transfiguração ao da confissão de Pedro. A razão é que um fato esclarece o outro. É o que parece pretender Marcos.

A presença de Moisés e Elias no relato da transfiguração vincula-se ao que é dito no momento da confissão de Pedro. Vejamos: após a pergunta de Jesus, a resposta dos discípulos traz à tona algumas das tradições que eram parte das esperanças populares em Israel. Uma é a do retorno de Elias [8], como sinal do tempo da restauração de Israel; outra falava de um profeta que, como Moisés, realizava sinais conforme Moisés fizera na fuga do Egito.

O aparecimento desses personagens na transfiguração, além de apontar a continuidade da história da Salvação, busca confirmar a veracidade da confissão de Pedro. Além de Pedro, Tiago e João, Moisés e Elias são testemunhas da cena na qual Deus confirma o que já dissera no batismo e pela confissão de Pedro; ou seja, ali estava o Filho de Deus, Jesus o Messias.

Naquele momento de oração e profunda comunhão com Deus, surge uma questão: vamos eternizar este momento, pensam os discípulos. Por isso diz Pedro: “Mestre, é bom estarmos aqui...” Em seguida, Pedro propõe a construção de três tendas; o que indica a corporificação do desejo de eternização de um intenso momento de espiritualidade. Ali é um instante de comunhão com Deus e do fortalecimento da fé, mas a espiritualidade não se esgota na oração e na mística. Pois, é espiritualidade também o descer do monte, comprometer-se com os homens e mulheres, participar, conforme Jesus fez, da situação dos pobres de sua terra, anunciar-lhes o novo tempo de Deus, em que justiça e misericórdia substituem o legalismo e a indiferença dos fariseus e dos saduceus. É no conflito de uma espiritualidade apenas mística e domesticadora, uma ação apenas politicamente personalista, a que hoje encontramos na Igreja e seu ministério, no Brasil? Em alguns momentos, a exclamação de Pedro tem se tornado a nossa exclamação, apesar do equívoco...

Outra questão que nos ajuda a entender esse momento é o desafio colocado por Jesus dias antes. Tal desafio amedrontara os seus discípulos (cf. Mc 8.31-33). Pedro, inclusive, tenta impedir Jesus de dirigir-se a Jerusalém; por isso, é repreendido por Jesus. Sem dúvida, esta é a outra razão presente em uma espiritualidade comprometida: a resolução, a coragem, a firmeza, a alegria, são marcas presentes nos que, assumindo a submissão a Deus e à missão, não temem correr riscos pessoais. Sem isso nunca teria havido cruz e tampouco a ressurreição (cf. Mc 8.34-35).

Diante dessas questões levantadas pelo texto é que está o grande significado da essência da espiritualidade de Jesus. Jesus transforma a experiência mística e profundamente espiritual em um momento de fortalecimento e mobilização com vista ao cumprimento de sua missão. Ou seja, Jesus não orava para fugir ao cotidiano e às forças do pecado e da morte nele presente; mas, sim, para habilitar-se ao anúncio e compromisso com a vida e a história dos homens e mulheres. Em essência, isso é espiritualidade comprometida, e não alienante e escapista, no sentido de fugir ao confronto, como queria Pedro, transformando a espiritualidade numa alienação. Assim, do mesmo modo que não há missão sem espiritualidade, não há espiritualidade sem missão e compromisso.

Notas

Desde a época primitiva se identificou esta alta montanha com o monte Tabor, na Galiléia Central; porém hoje, tendo em vista apenas os 300 metros de Tabor, os exegetas modernos têm optado pelo Hermon, localizado a apenas 19 quilômetros de Cesaréia de Filipe.

Em escritos rabínicos da época de Jesus e posteriores, a pomba era um dos símbolos da criação.

SCHWEIZER, Edward. La Iglesia Primitiva médio Ambiente Organizacion y Culto. Salamanca: Sigueme, s.a., p. 79.

RIVERA, Luis. Escríbio Marcos para nuestro tiempo? Revista Bíblica de Buenos Ayres, n. 3, 1971, p. 197.

TAYLOR, V. The Gospel According to St Mark. Londres: Macmillam and Corp. Ltd., 1958, p. 329.

SCHMIDT, J. El Evangelio de Marcos. Barcelona: Herder, 1969, p. 217.

TAYLOR, V. The gospel According to St. Masrk. Londres: Macmillan and Corp, Ltd., 1958, p. 330.

Evidentemente não se tratava do próprio Elias, mas, sim, de um profeta como Elias, um sucessor como fora Eliseu.


Caminhando
ISSN 1519-7018

Revista da Faculdade de Teologia da Igreja Metodista. Universidade Metodista de São Paulo.

E-mail para contato: caminhando@metodista.br

Universidade Metodista de São Paulo    

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