sexta-feira, 24 de junho de 2011

A Sacramentalidade da Liturgia

Pe. Cristiano Marmelo Pinto

1. Introdução

Ao refletirmos sobre a sacramentalidade da liturgia, não queremos estudar os sacramentos em particular, mas buscar compreender o que os leva a ser um sacramento. Segundo D. Borobio, o conceito de sacramento deve ser deduzido da própria experiência celebrativa do mesmo. Os sete sacramentos estão inseridos numa realidade sacramental que vai além do septenário sacramental.

Para estudar a sacramentalidade da liturgia deve-se unir liturgia e sacramentologia fundamental, partir da realidade dada e da experiência celebrativa. Deste modo não se corre o risco de considerar comum o que é particular, ou submeter a um conceito apriorístico o que é experiência plural e concreta.

A sacramentalidade da liturgia deve ser tratada levando em conta quatro elementos:
  1. O Organismo sacramental pleno, ou seja, tentar situar os sacramentos no contexto da realidade sacramental total, o sacramento visto a partir de Deus e de seu plano;
  2. O homem e os sacramentos, situando os sacramentos na ordem dos símbolos, a partir da natureza simbólica do homem, ou seja, o sacramento visto a partir do homem;
  3. A origem, a diversidade e a estrutura dos sacramentos, ou seja, ver os sacramentos a partir da sacramentalidade da Igreja;
  4. Os sacramentos como encontro de graça e liberdade, procura-se compreender o como, o para que e o quando dos sacramentos. Sua eficácia simbólica e resposta de fé.
A Igreja deve se perguntar o que é, na verdade, um sacramento? Ele é uma realidade pluridimencional, comportando diversos elementos (Deus-homem-Igreja) e se realiza em diferentes contextos e situações (históricas, culturais e pastorais).

Embora a essência dos sacramentos continue a mesma, haverá sempre a exigência de uma interpretação conforme as circunstâncias dos diversos elementos.

Há diferentes razões para fazer uma nova síntese sacramental. As principais são:
  1. Razão teológica: Deus é o mesmo, mas nem todos os homens crêem da mesma forma;
  2. Razão cristológica: Cristo é o centro dos sacramentos;
  3. Razão pneumatológica: qual o lugar do Espírito Santo nos sacramentos e como se relacionam;
  4. Razão eclesiológica: o conceito de sacramento depende do conceito de Igreja que temos;
  5. Razão escatológica: os sacramentos são a celebração do “já” e do “ainda não” – dimensão escatológica dos sacramentos;
  6. Razão antropológica: leitura antropológica dos sacramentos, sua origem, diversificação e eficácia;
  7. Razão sociocultural: o sacramento é sempre celebrado a partir de uma realidade concreta;
  8. Razão pastoral: a pastoral sacramental é decisiva na vida da Igreja.
2. Realidades sacramentais e dimensões do sacramento

Por muito tempo o conceito de sacramento ficou restrito aos sete sacramentos da Igreja ou aos ritos sacramentais.

Existem outros centros de sacramentalidade, o que não é nenhuma novidade. Nos doze primeiros séculos do cristianismo a palavra mistério–sacramento era empregada para designar diversas realidades, tais como Cristo, a Igreja, a Escritura, etc.

A fixação do septenário sacramental (os sete sacramentos) se dá a partir do Concílio de Trento e da controvérsia com os protestantes. A partir de então se limita aos seguintes requisitos:

1. Instituição por Cristo;
2. Estrutura de forma e matéria;
3. Eficácia;
4. Intenção por parte do ministro e disposição do sujeito.

O Concílio Vaticano II utiliza o termo sacramento no sentido mais amplo, aplicando-o a Cristo, a Igreja, a Palavra, ao homem, ao cosmo, a história, etc. Trata-se de reconhecer a essência sacramental das diversas realidades, reconhecendo seus elementos comuns e diferentes.

Esta visão parte do conceito mais amplo de sacramento, que significa a manifestação da visibilidade histórica do dom invisível da graça de Deus.

A história da salvação é história humana enquanto plena da presença de Deus e suas intervenções, tendo como ápice a encarnação de Jesus Cristo. O que dá a estrutura sacramental a história é o estar de Deus nela. Cristo, por sua encarnação é o ponto culminante da sacramentalidade da história. Os sacramentos atualizam, realizam a história da salvação na Igreja.

3. Cristo, sacramento original

A fonte, o sentido e o centro da sacramentalidade é Cristo. Ele entra na história como sinal-sacramento. Cristo é sacramento porque a salvação tomou figura humana e se manifestou visivelmente.

A presença de Cristo na história não é um acréscimo a presença pré-existente de Deus na história, mas ponto culminante. A encarnação é a sacramentalização radical da presença de Deus na história humana.

Cristo é o “proto-sacramento”, ou seja, o sacramento original, que torna visível o amor e a graça de Deus. Ele é a origem, o sentido e o centro da sacramentalidade.

4. A Igreja como sacramento principal e o homem como sacramento existencial

Cristo é a única origem dos sacramentos, mas precisa de um prolongamento na história. A Igreja é esse prolongamento. Ela é sinal-sacramental da graça redentora. Por ser o sacramento principal de Cristo, a Igreja revela a dimensão eclesial dos sacramentos.

No homem há também uma realidade sacramental. Ele é sinal-sacramental de Deus e de Cristo. Foi criado a imagem e semelhança de Deus. Por isso, todo homem, pelo fato de existir é sinal, imagem de Deus.

O homem é chamado a tornar Deus presente no mundo e a colaborar com ele na obra da criação. Portanto, todo homem, batizado ou não, é sacramento de Cristo.

Jesus Cristo, com sua encarnação, assumiu a natureza humana, fazendo de todo homem um sinal privilegiado seu. Cristo potencializou a imagem de Deus no homem. Por isso, podemos dizer que onde há uma existência humana, há igualmente a presença de Deus. Mesmo não havendo fé, há uma existência não explícita da graça de Deus. O que a Igreja nos oferece de forma explícita nos sacramentos, já está de forma implícita na existência humana.

O cristão por sua vez é sinal-sacramental de Cristo e da Igreja. Tudo o que foi dito sobre a existência humana, é aplicado de modo rígido ao cristão. Ele, o cristão, vive sua sacramentalidade de forma eclesial, no interior da comunidade dos crentes. O cristão é sacramento de Cristo e da Igreja ao mesmo tempo.

5. Os sacramentos da Igreja como concentração simbólica de uma sacramentalidade plural

Os sacramentos da Igreja concentram tudo o que foi dito até agora. Para D. Borobio os sacramentos só são explicados se neles se integram diversas realidades e dimensões sacramentais.
O Concílio Vaticano II avançou na síntese em que palavra e sinal são dois aspectos integrantes e necessários dos sacramentos.

Os sacramentos como concentração simbólica deve ter um caráter sensível e visível. Esta compreensão dos sacramentos enquanto sinal sensível tem seu ponto de partida de renovação no movimento litúrgico e da sacramentologia geral.

A estrutura dos setes sacramentos, de toda a Igreja, é a própria estrutura da história da salvação. Essa estrutura sacramental manifesta e presentifica o mistério invisível de Deus.

6. O caráter simbólico da sacramentalidade

Não há uma noção uniforme de símbolo. Etimologicamente a palavra símbolo – simbólico vem do grego e significa por algo em relação, juntar, unir, articular, etc.

As diversas ciências, tais como a psicologia, a filosofia, a teologia, a semiótica, entre outras, contribuem destacando diversos aspectos do símbolo. O símbolo é uma realidade humana, de ordem externa e visível, que tem uma função mediadora e comunicadora ao remeter ao que é simbolizado.

Como já vimos, a história da salvação tem uma estrutura sacramental. E através dessa estrutura é que se explica a diversidade de realidades simbólicas.

Tudo o que se diz do símbolo pode-se dizer do sacramento. O sacramento é uma imagem ou símbolo eficaz à medida que significa o que é significado. O símbolo é um signo – sinal no qual o significado torna-se presente pela referência simbólica. A essência dos sacramentos consiste em mostrar, expressar, revelar... o seu significado.

D. Borobio assim descreve a liturgia e os sacramentos:

Devemos entender a liturgia e os sacramentos como a expressão simbólica de Deus, da Igreja e do homem. E isso porque Deus, a Igreja e o homem são realidades simbólico-sacramentais e, enquanto tais, precisam expressar-se e se expressam pelos símbolos sacramentais que fazem parte de sua realidade e a ela remetem (p. 337).

Os sacramentos são expressões simbólicas das situações fundamentais da vida humana. Essas situações são: nascimento, morte, responsabilidade, doença, pecado, escolha, etc. Dentro dessas situações fundamentais da vida, os sacramentos são ponto de partida para um novo futuro.

7. Origem, diversidade e estrutura do sinal sacramental

Os sacramentos tendo sua origem e fundamento em Cristo, sua diversidade entende-se a partir da Igreja. Sua estrutura encontra-se em Cristo, mas a determinação dessa estrutura é compreendida mediante a explicação histórica da Igreja.

A instituição dos sacramentos deve ser explicada a partir da Escritura. Sua origem deve compreender-se a partir do mistério salvífico de Cristo, os sacramentos não podem ter outra origem senão Cristo.

A própria Igreja, embora seja a primeira sacramentalização, precisa de um desdobramento sacramental (por exemplo, os sete sacramentos). O mistério pascal não é origem somente da Igreja, mas também dos sinais sacramentais.

O sacramento tem uma estrutura de aliança, ou seja, dialogal, de encontro inter-pessoal, de inter-relação comunicativa entre Deus e o homem. Possui uma estrutura mais dinâmica, ou seja, entende-se o sacramento como processo e movimento, e não somente como ato celebrativo.

8. Eficácia e graça sacramental

A questão da eficácia sacramental é importante, visto que estão envolvidos a verdade, a plenitude, o efeito e o fruto do sacramento. As celebrações dos sacramentos são salvíficas, atualizadoras do mistério, santificadoras e eficazes.

Tomas de Aquino pensa os sacramentos como sinais eficazes de graça, porque significa, contêm a graça e causam a santificação. Trento não entra na questão da eficácia ou causalidade dos sacramentos, procura apenas corrigir alguns erros.

A expressão “graça sacramental” surge na escolástica. É considerada como um elemento constitutivo da estrutura do sacramento, que indica sua meta, objetivo. Para Tomas de Aquino, graça sacramental é a graça produzida pelo sacramento. Para E. Schillebeeckx é a graça santificadora. Sua centralidade é o mistério pascal de Cristo.

A centralidade do mistério pascal na graça sacramental significa que sendo presença e atualização da história da salvação, os sacramentos são de igual modo, presença e atualização do centro da história da salvação: o mistério pascal de Cristo.

A graça sacramental é pascal e pneumatológica, ou seja, é também ação do Espírito Santo.

9. O caráter sacramental

A doutrina tradicional da Igreja fala de dois efeitos da graça sacramental: o caráter sacramental (sacramentum et res) e a graça sacramental (res tantum). Trento afirma que caráter é um sinal espiritual e indelével que se imprime no batismo, na confirmação e na ordem.

O termo “character” procede da cultura profana antiga e significa sinal de reconhecimento, de distinção, de pertinência ou propriedade. Ser marcado significa começar a fazer parte, pertencer a um grupo, a uma comunidade determinada.

Será no decorrer do século XII que vai se firmando e organizando a doutrina do caráter como algo irrepetível e permanente, principalmente em relação ao batismo. O Concílio Vaticano II irá situar a questão do caráter dentro de uma nova eclesiologia e pneumatologia.

10. A resposta de fé como elemento constitutivo do sacramento

Na ação sacramental são dois os sujeitos que intervém de maneira direta: o ministro e o sujeito.

Quanto ao ministro, a verdade santificadora do sacramento parte de Deus, sua origem. O ministro só tem o poder de administrar os sacramentos, mas não de conceder a graça. Quanto à intenção do ministro exige-se que seja a intenção da Igreja. O Concílio Vaticano II vai falar do ministro como presidente e não com administrador.

A validade do sacramento não está vinculada ao ministro. A função do ministro é de serviço. Ela é necessária a ação sacramental, pois, os sacramentos têm uma estrutura ministerial.

O fato do sujeito ter que participar com sua fé dos sacramentos, sempre foi uma verdade para a Igreja. Mas foi o Concílio Vaticano II quem recuperou o lugar do sujeito nos sacramentos.

Os sacramentos destinam-se a santificação dos homens. Eles não só supõem, mas também a alimentam e a exprimem. A fé e o homem é parte constitutiva do sacramento. A fé pessoal é elemento constitutivo e necessário para a plenitude do sacramento.

11. Conclusão

O batismo é o sacramento que sela a primeira fé, a conversão primeira, ou seja, a opção por Jesus Cristo e a sua salvação. A fé que se expressa no sacramento é a própria fé vivida. A fé sacramental não é apenas a fé batismal, é também a fé vivida.

A fé precisa ser celebrada para afirmar-se. Só quem vive pode celebrar e só quem celebra pode viver. Essa fé batismal vivida deve ser fé eclesial, ou seja, deve coincidir com a fé da Igreja.
A fé do sacramento deve ser uma fé pessoal, ou seja, quem recebe o sacramento deve ser uma pessoal fiel, que vive a sua fé batismal em sintonia com a fé da Igreja.

O sacramento só pode realizar-se quando há um livre acordo entre Deus que oferece gratuitamente, e o homem que acolhe livremente. O risco de Deus é a liberdade do homem, pois o exercício da liberdade é parte fundamental do sacramento.

Deus está sempre presente no sacramento. Sua ação é absolutamente livre e gratuita. Mas o homem é chamado para colaborar na ação sacramental e participar dela. A fé é ao mesmo tempo um ato do homem e uma dádiva de Deus.

Por outro lado, pode-se dizer que a resposta de fé da Igreja e do homem é a possibilidade de realização da graça de Deus no sacramento.
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Bibliografia:

BOROBIO, Dionísio. Da Celebração à teologia: que é um sacramento? In: BOROBIO, D. (org.). A Celebração na Igreja I: Liturgia e sacramentologia fundamental. São Paulo: Loyola, 1990, pp. 283-424.
FERNÁNDEZ, Conrado. A Sacramentalidade da Liturgia. In: CELAM. Manual de Liturgia II. São Paulo: Paulus, 2005, pp. 85-110.
DA SILVA, José Ariovaldo. Sacramentalidade da Liturgia. In: COSTA, Paulo Cezar (org.). Sacramentos e Evangelização. São Paulo: Loyola, 2004, pp. 13-31.

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