quinta-feira, 14 de abril de 2011

Jubileu e Gratuidade


Haroldo Reimer
Viver a partir da graça é uma das experiências mais profundas e mais gratificantes da vida humana. Como pessoas cristãs, como comunidades e como Igreja, por fé, vivemos do anúncio e da realização da graça de Deus atuante no mundo e em nossa vida. Cremos em Deus como a origem da gratuidade da vida e do amor, para toda a sua criação. Cremos no seu santo Espírito a pro-clamar a constante novidade da vida e da renovação do viver. O Espírito de Deus, por seu poder, e através da Palavra quer chamar a todos nós para essa novidade evangélica de vida mostrada da forma mais profunda no viver de Jesus de Nazaré, o Cristo de Deus.
Nas nossas Sagradas Escrituras temos tradições que falam de uma constante reorganização da vida do povo de Deus. Em Levítico 25 lemos que a cada 50 anos deveria ser tocado o “yobel”, que é uma espécie de chifre de carneiro usado liturgicamente em ocasiões muito especiais. O toque desse “berrante divino” convocava o povo de Israel para uma ampla libertação. Quem tivesse perdido as suas terras, poderia voltar à sua possessão. Quem se tornou escravo por causa de dívidas, seria liberto e teria a sua dívida perdoada. Esse quinquagésimo ano era conhecido como “ano jubilar”. Por trás dessa tradição maior há outras tradições como o sétimo dia como um dia de descanso. Poder descansar é uma graça! Havia também as tradições do ano sabático: no sétimo ano, a terra teria o direito de descansar (Ex 23,10-11), as pessoas escravizadas por relações econômicas deveriam ser libertas (Ex 21,2-11; Dt 15) e as dívidas eram perdoadas (Dt 15). Tal ano especial era chamado de “ano jubilar”. Era o ano em que se tocava a “trombeta libertadora de Deus” (yobel) e da música gerada pelo Espírito libertador que soprava mais forte na letra dessas leis brotavam o júbilo e alegria das pessoas oprimidas e empobrecidas. Por sua graça, Deus concedia e ordenava um tempo especial para poder recomeçar a vida.
Essas tradições jubilares testemunhadas no Antigo Testamento são assumidas e radicalizadas na prática de Jesus de Nazaré. Jesus se apresenta como o Messias de Deus que realiza o “ano da graça” ou “ano jubilar” (Lc 4). O Cristo de Deus requer o perdão de dívidas, a libertação de pessoas escravizadas e a construção de relações de vida justa e digna. A grande novidade em Jesus é que esse “ano da graça” deve ser uma realização constante. Jesus rompe com o esquema de tempo. Não mais de 7 em 7 anos, nem de 50 em 50 anos, mas cada dia é tempo especial de viver da graça e a graça de Deus na vida da gente. HOJE é o tempo oportuno de salvação. Isso Jesus mostrou de modo inequívoco na singela e mais profunda oração: “Pai nosso ... cada dia ... perdoa as nossas dívidas, assim como nós perdoamos os nossos devedores ...” (Mt 6).
O berrante hebraico ecoa na história. Quer chamar para ousar pensar e realizar câmbios profundos nas relações econômicas e sociais. O Espírito Santo continua a nos chamar hoje para viver na dinâmica dessa libertação.


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