sábado, 21 de maio de 2011

OS DEZ MANDAMENTOS - CONTEXTUALIZAÇÃO E ATUALIZAÇÃO

OS DEZ MANDAMENTOS
Frei Bruno Glaab
Fonte: Jornal Correio Riograndense 
Caxias do Sul - RS.

Introdução
Os Dez Mandamentos, ou também chamado o Decálogo, cujos textos se encontram em Ex 20,2­17 e também em Dt 5,6-21, são parte integrante de nossa catequese cristã. São, por assim dizer, parte central da antiga aliança (Ex 19- 24), ou melhor, uma compilação do que se encontra espalhado em muitas partes do Pentateuco, embora não abranja, nem de longe, toda a legislação do mesmo. Nós tempos do Novo Testamento eles eram rigorosamente observados, tanto pelos judeus, principalmente pelos fariseus, como por Jesus e por seus discípulos. No entanto, Jesus dá um sentido diferente daquele dos fariseus. Ele os completa e lhes dá o verdadeiro sentido (Mt 5,17ss). De fato, a vinda de Cristo estabelece a Nova e Eterna Aliança, o que, segundo Ef 2, 15 e Hb 7,12, mudou a antiga Lei ou a aboliu. Assim sendo, os Dez mandamentos estão superados, pois representam a antiga Lei. Paulo nos diz que as obras da Lei de Moisés não salvam ninguém (Gl 2,16).
Nossa ética cristã não parte mais dos Dez Mandamentos, mas da pessoa de Cristo. Então, para que serve o Decálogo? Se nós cristãos, fôssemos maduros e de fato aderíssemos a Cristo, já não mais precisaríamos deles. Enquanto existir imaturidade, os Dez Mandamentos serão indicativos que nos ajudam a viver a vida cristã. Mas é bom lembrar: nossa salvação não vem da observância do Decálogo, mas somente da pessoa de Cristo (Gl 2,16). Além disso, existem muitos mandamentos fora do decálogo. Vejamos: Ex 21,lss; Lv 11ss; Dt 12,1ss; Dt 23,1ss, etc.) Aliás, todo Pentateuco recebe, no Antigo Testamento, a designação de Torá, isto é, Lei.

A história do Decálogo
Numa primeira leitura do Êxodo nos parece que foi tudo assim tão simples. O povo hebreu saiu do Egito e passou pelo Mar Vermelho (Ex 14), entrou no deserto, onde permaneceu por quarenta anos (Ex 16ss) e lá fez aliança com Javé (Ex 19-24) e nesta aliança Deus entregou os Dez Mandamentos diretamente a Moisés (Ex 20,lss). Precisamos, no entanto, alertar que os livros bíblicos como o Êxodo e também o Deuteronômio, tais quais os temos hoje na Bíblia, foram por muito tempo apenas tradicional, oral, contada de pais para filhos e de filhos para netos.
A redação dos livros do Pentateuco (Gn, Ex, Lv, Nm e Dt) só se deu vários séculos depois do fato do Êxodo. Por isso mesmo nem tudo deve ser lido como se fosse exatamente daquela época. Diríamos antes, o Decálogo tem sua origem nos povos primitivos, mas foi evoluindo por séculos na tradição oral até se formar a redação atual em nossas Bíblias. Por isto, ao ler hoje os textos de Ex 20,2-17 e Dt (5,6-21 encontramos muitas camadas literárias. Algumas coisas refletem tempos antigos, outras vêm de tempos posteriores. Por c exemplo, o mandamento do sábado (Ex 20,8-11), bem como o mandamento do não cobiçar (Ex 20,17), fala dos escravos, de casas, de animais, bois, jumentos e de imigrantes. Ora, os escravos libertos do Egito, quando foram para o deserto, não tinham casas, nem escravos e entre eles não havia imigrantes. Moravam em tendas e talvez tivessem pequenos animais, mas bois e jumentos ao menos parecem que não tinham, pois não seria possível mantê-los no deserto.
Alguns biblistas julgam que na época do Êxodo (1250 a.C) os povos da região ainda nem conheciam o gado bovino. Este teria sido introduzido alguns séculos mais tarde. Logo, estas explicações não vêm dos tempos da Aliança, mas sim, do século oitavo ou sétimo antes de Cristo, quando o povo já estava estabelecido em Israel e possuía escravos, animais e imigrantes.
Algumas coisas que estão no Decálogo refletem os tempos da redação final do texto. Isto deve ter se dado durante o Exílio da Babilônia (por volta de 550 a.C.), ou logo depois. Talvez no Exílio da Babilônia o povo fizesse o seguinte raciocínio: "Uma vez fomos escravos do Egito e Javé nos tirou de lá com mão forte. Se agora, na Babilônia, observarmos os mandamentos de Javé, ele nos libertará novamente". Assim sendo, se fez a redação final dos textos que hoje conhecemos.

Chave de leitura para o verdadeiro sentido
Para entendermos o verdadeiro sentido da interpretação dos mandamentos precisamos levar em conta o primeiro versículo dos mesmos. Em Ex 20,2, bem como em Dt 5,6 se lê: "Eu sou Javé seu Deus, que fiz você sair da terra lê do Egito, da casa da escravidão". Sem esta frase, os Dez Mandamentos perdem seu objetivo e seu e sentido. Num primeiro momento podemos, de fato, pensar na escravidão do Egito, de onde os hebreus foram libertos por Javé, pela coordenação de Moisés, de Miriam, de Aarão e de outros líderes. Porém, na história de Israel sempre houve opressões, das quais o povo precisava se libertar. O Egito virou símbolo de opressão. Com a instalação da monarquia em Israel (1Sm 8, l0ss ), principalmente com Salomão (lR2 10, l4ss e 1Rs 11,l-8), a escravidão e a idolatria ganharam força. Também nos tempos do Exílio da Babilônia (589-538 a.C.) a escravidão e a idolatria se tomaram motivos fortes. Por isto mesmo, ter o Egito e sua opressão como pano de fundo era sempre um motivo para ilustrar todas as opressões que o povo sofreu. Então, a frase de Ex 20,2 serve de chave para todas as opressões que através da história a se abateram sobre o povo hebreu.
Assim, com base na libertação do Egito, os hebreus foram moldando e completando um caminho de libertação. Este caminho de libertação são os Dez Mandamentos. Veremos em nossas dez lições como cada mandamento quer ser um remédio que liberte da escravidão do Egito e de todas as escravidões que afligem o povo de Israel, por conseqüência, todas as escravidões que ainda hoje afligem o povo. Enfim, o Decálogo tem por objetivo preservar a vida digna e livre do ser humano, o mesmo que Jesus fez com sua ação libertadora (Jo 10, 10). O Decálogo é a garantia da liberdade.

Javé, o Deus da vida livre
No Antigo Testamento muitas vezes encontramos o tema da idolatria ligado à escravidão e à opressão: 1Rs 21; Am 2,6ss; 3,13ss;7,l Oss; Is 16,7ss. O próprio Salomão, quando quis viver faustosamente às custas do povo (1Rs 10,14ss) trouxe para dentro de Israel a idolatria (1Rs 11,1ss). Muitos reis, através da história de Israel e de Judá, construíram lugares altos, ou seja, lugares de culto a ídolos: 1Rs 12,28ss; 1Rs 16,13ss; 1Rs 16,23ss; 1Rs 16,31ss; etc.
O culto aos ídolos está diretamente ligado aos projetos políticos de opressão. Os reis, para imporem seus projetos de opressão, usavam duas forças: as armas, o exército e o aparelho repressor do estado por um lado e a religião idolátrica por outro. Com as religiões idolátricas se fazia a cabeça do povo. Dizia-se que o rei era filho dos deuses. Obedecer ao rei era o mesmo que obedecer aos deuses. Aceitando tal doutrina, o povo já escravizado e explodo aceitava a escravidão como vontade dos deuses. Além do mais, os diversos reis de Israel e de Judá,quando queriam oprimir o povo, além de buscar legitimação religiosa ou ideológica nos ídolos, conseguiam com isto apagar a memória libertadora de Javé o Deus da vida, pois esta memória de um Deus que ouve o clamor dos pobres (Ex 3,7ss) era sempre perigosa para qualquer projeto político de exploração. Era preciso apagar da memória do povo qualquer vestígio de Javé, aquele do Êxodo. Se os escravos, em meio ao seu sofrimento, celebrassem a memória de Javé, sempre havia perigo de uma insurreição contra os poderosos. Os pobres diriam: como é que no passado Javé libertou os escravos e hoje não liberta mais? Ele mudou?
O/a leitor/a poderá verificar nos dois livros dos reis a história dos soberanos de Israel e de Judá. Pára a maioria dos reis se diz logo no início de cada história: "Fez o que Javé reprova". Geralmente se trata de projetos políticos perversos e de idolatria. Como vemos, idolatria e projetos políticos desastrosos andam de mãos dadas. Todos os deu­ses servem a interesses. Só Javé é o Deus da vida que não se submete a ninguém, embora Salomão tenha submetido a religião javista, construindo um pomposo templo em Jerusalém e transformando os sacerdotes em funcionários do estado (1Rs 5 e 6), calando com isto as vozes javistas de reação.
Assim, preservar os Dez Mandamentos é antes de tudo impedir que se pratique o culto idolátrico e que se implemente projetos políticos escravagistas e opressores. Javé é o Deus da vida. Ficar fiel a Javé é posicionar-se a favor da vida livre. E não permitir que falsas ideologias se instalem e legitimem novamente tais projetos.

Conclusão
Os Dez Mandamentos são indicativos para os discípulos de Jesus. O motivo que leva a cumpri-los e a estudá-los é o amor a Deus e ao próximo. Em outras palavras, quem ama a Deus se sente comprometido com a vida e para que a vida possa desabrochar em todas as suas potencialidades, precisamos de mandamentos de setas que nos orientem. Os Dez Mandamentos apontam para o convívio harmônico, não de uma forma romântica, mas real. Para que a vida floresça, é preciso compromisso. Deus quer homens e mulheres cultivando valores que tornam a vida uma festa de liberdade e de paz.
BIBLIOGRAFIA
MESIERS, Carlos. Bíblia, livro da aliança - Êxodo 19-24. São Paulo: Paulinas, 1989
MESTERS, Carlos. Os Dez mandamentos Ferramentas da comunidade. São Paulo: Paulus, 2008.
CRÜSEMANN, Frank. Preservação da liberdade - o Decálogo numa perspectiva histórico-social. São leopoldo: Sinodal/ Cebi. 1995

O PRIMEIRO MANDAMENTO
Lição 01- PRIMEIRO MANDAMENTO
SÓ JAVÉ COMO DEUS E NENHUM OUTRO!
Ao começar a analisar os Dez Mandamentos vamos seguir a versão de Ex 20,2-17. Iniciamos com a porta de entrada da casa dos Mandamentos: Eu sou Javé seu Deus, que fiz você sair da terra do Egito, da casa da escravidão (Ex 20,2). Não tenha outros deuses diante de mim. Não faça para você ídolos, nenhuma representação daquilo que existe no céu e na terra, ou debaixo da terra. Não se prostre diante desses deuses, nem sirva a eles, porque eu, Javé seu Deus, sou um Deus ciumento: quando me odeiam, castigo a, culpa dos pais nos filhos, netos e bisnetos; mas quando me amam e guardam os meus mandamentos eu os trato com amor por mil gerações (Ex 20,3-6).
Este mandamento pede três coisas: "Não ter outros deuses, não fazer imagens, nem se ajoelhar diante destes deuses e destas imagens". Ou seja, o primeiro mandamento manda escolher entre Javé e os outros deuses, isto é, entre a liberdade e a opressão, entre a vida e a morte. Lá no Egito, o faraó, para manter a escravidão, usava dois braços: a polícia ou o exército e a religião. Pela polícia ele reprimia qualquer tentativa de liberdade. Mas para facilitar esta tarefa, o faraó criava deuses, fazia lindas imagens, com suntuosos templos e belas liturgias. Quando os escravos iam aos templos adorar os deuses, eram instruídos de que o faraó era o filho preferido dos deuses. Desobedecer à política do faraó era o mesmo que desobedecer aos deuses. Assim sendo, quanto mais o povo ia adorar, mais a escravidão se legitimava.

FUGA DO EGITO - Moisés tinha a herança do Deus dos Pais (Abraão, Isaac, Jacó). Ao mesmo tempo, conhecia o sistema do faraó, pois foi educado na corte egípcia (Ex 2). Assistido por Deus ele passou a conscientizar o povo de que aqueles deuses do faraó eram falsos e serviam para legitimar a escravidão. Uma vez que o povo não ia mais adorar as imagens dos deuses, o faraó perdia a força de controlar os escravos. Sob a liderança de Moisés, conseguiram fugir do Egito (Ex 14).
Agora no deserto, livre da escravidão (Ex 16s5), o povo entende que Javé é o Deus que liberta (Ex 20,2), enquanto que os deuses servem para legitimar a escravidão. Ao fazer a aliança com Javé (Ex 19-24) se coloca um re­médio definitivo para não voltar à escravidão: não ter outros deuses, nem repetir as imagens que o faraó fazia, nem adorá-los, pois se os escravos libertos agissem assim, repetiriam a escravidão do Egito. Para ser livres era preciso lembrar: Javé nos tirou da Escravidão, portanto, não podemos voltar aos deuses do faraó.

ADERIR A DEUS - Como viver hoje este mandamento? Antes de tudo, colocando Deus como centro de nossa vida assim como fez Jesus em sua vida. Podemos ter imagens de Nossa Senhora, de São Francisco? A proibição de Ex 2,3-6 nada tem a ver com nossas imagens. Proíbe as imagens que faraó fazia para enganar o povo. O próprio Javé manda fazer imagens (Ex 25,18ss; veja também 1Rs 6,23­- 29; 1Rs 19,15). Logo, a proibição a das imagens de Ex 2,3-6 não se refere às imagens que hoje usamos, mas às imagens de falsos deuses usadas para dominar o povo. E claro que, quando nos aproximamos de qualquer imagem, sempre precisamos ter claro que aí está apenas uma representação. Assim com a fotografia lembra alguma pessoa amada, assim a imagem lembra Jesus, Maria etc. Além do mais, no Pentateuco existem tantas leis que hoje não podemos observar. Muitas destas leis contrariam o evangelho. Vejamos: Ex 21,23 olho por olho, dente por dente. Jesus manda perdoar sempre (Mt 6,12ss; Mt 18,21ss). Veja também Ex 22,17ss; Dt 13,7-12.
Hoje os falsos deuses se apre­sentam de forma mais sutil: a ilusão de um mundo feliz sem Deus. Ser fiel ao primeiro mandamento é aderir a Jesus e não cair na ilusão daquilo que hoje desvia o coração da tantas pessoas da verdade e gera escravidão.

Lição 02 - O SEGUNDO MANDAMENTO
O SEGUNDO MANDAMENTO
NAO TOMAR SEU SANTO NOME EM VÃO
Em nossos catecismos se lê: Não tomar seu santo nome em vão. Já no texto bíblico se encontra: "Não pronuncie em vão o nome de Javé seu Deus, porque Javé não deixará sem castigo aquele que pronunciar o nome dele em vão." (Ex 20,7). Para entender este mandamento, precisamos conhecer a prática comum entre os reis, tanto do faraó no Egito como depois, entre muitos reis de Israel. O faraó usava seus deuses para enganar o povo. Dizia que desobedecer ao faraó era desobedecer aos deuses. Em Judá como em Israel, os reis introduziram ídolos para manipular o povo. Veja como Salomão, Jeroboão e Acab introduziram ídolos para manipular 1Rs 11,1-8; 1Rs 12,25-33 e 1Rs 16,29ss. Usava-se o nome dos deuses para poder im­por seus projetos políticos.
Mais tarde, na volta do Exílio (539 a.c.), em Judá se firma cada vez mais o monoteísmo, ou seja, já não sobra lugar para os ídolos. Mas ai começa outro problema: usa-se o nome de Javé para legitimar uma visão torpe da vida. Agora Javé se toma alguém verdadeiramente terrível, distante, pronto para condenar. Javé foi transformado pela religião oficial de Jerusalém num prisioneiro do templo que legitimava a política de então, nem seu nome poderia ser pronunciado. Os chefes do povo tinham seus privilégios e o povo que não conhecia a lei era visto como maldito (10 7,49). Deus estava tão distante do povo que os pobres, os pequenos e toda sorte de pecadores, estrangeiros, doentes, deficientes físicos eram vistos como amaldiçoados (2Sm -5,8). Isto tudo era usar o nome de Deus em vão. Usar Deus para oprimir o povo, ou para manter um status quo.

OS EXCLUÍDOS - Jesus mudou tudo isto. Ele aproximou o povo de Deus, a começar, pelos excluídos: pastores (pobres) e magos (estrangeiros) são os primeiros a. visitá-lo na manjedoura. Come com os pecadores (Mc 2,15ss; Lc 15,1ss), chama a Deus de Pai (Mt 6,9ss), chama Deus de Abba (papaizinho) (Mc 14,36), compromete-se com os pobres, deficientes, doentes, pequenos (Mt 111,4s8). Não aceita a idéia de um Deus fácil para resolver seus problemas (Mt 4,5-6). Em poucas palavras, a religião farisaica transformou Javé num Deus legitimador da situação, um peso para o povo. Jesus mostrou um Deus libertador do povo, cheio de compaixão e misericórdia (Lc 15,11-32).
Assim sendo, tanto os reis como os chefes do povo usaram Deus para melhor manipular o povo. Mas Javé não se presta para en­ganar ninguém, para dominar ou explorar. Ele é o Deus dos pequenos, que ouve o clamor dos opri­midos (Ex 3,7ss). Usar Javé para enganar é usar seu nome em vão. E usar aquele que veio para libertar as pessoas para oprimi-Ias. Isto é uma blasfêmia. Jesus quebrou a falsa imagem de Deus que os senhores da época implantaram.

NÃO DETURPAR O PAPEL DE DEUS - Como hoje nós podemos observar este mandamento? Não tomar o nome de Deus em vão é muito mais do que evitar explicações maldosas contra Deus. E, antes, não usar Deus para legitimar os males que nos afligem. Diante das injustiças, dizer que Deus quer assim. Uma frase bastante comum: "O que aqui se faz, aqui se paga", ou então, o inferno é aqui. Se isto fosse real, então os milhões de pobres desassistidos seriam todos pecadores e os grandes corruptos seriam os bons, pois eles têm vida boa e o povo sofre. Isto é usar o nome de Deus em vão. Outra maneira de ser fiel é não transformar Deus em nosso servo, ou quebra-galho (Lc 4,9-12) como hoje se faz nas ditas igrejas milagreiras que dominam a Deus em seus interesses.
Não tomar o nome de Deus em vão é, antes de tudo, não deturpar o papel de Deus, desde o Êxodo até sua revelação plena em Jesus Cristo, sempre agindo a favor dos pequenos.

NÃO TOMAR O NOME DE DEUS EM VÃO - Alguém disse certa vez que o segundo man­damento foi feito para o povo de origem italiana. Há um costume, principalmente entre os povos desta origem, de blasfemar, ou, como dizem os italianos, de blasfemar. Em momentos de raiva, ou até de alegria, exclamam impropérios contra Deus. E evidente que isto não se deve fazer, mas o segundo mandamento nada tem a ver com isto. Não se trata de nenhuma exclamação de raiva ou de alegria, nem de algo que escapa de uma mente descuidada e exaltada. Não tomar o nome de Deus em vão é algo muito mais grave do que isto. Trata-se antes, de não apresentar um Deus falso, ou seja, não colocar sobre Deus um rótulo falso. Apresentar o Deus verdadeiro com características dos falsos deuses. Ou usar Deus para escravizar, ou, ainda, desvincular Deus do Ex 20,2: Aquele que libertou o povo da escravidão.

Lição 03 - OS MANDAMENTOS
O TERCEIRO MANDAMENTO
SÁBADO: DESCANSAR E FAZER MEMÓRIA DA LIBERDADE E DIGNIDADE
Em nossos catecismos lemos: guardar domingos e dias de festas. Isto corresponde ao texto bíblico? Vejamos: lembre-se do dia de sábado, para santificá-lo. Trabalhe durante seis dias e faça todas as e suas tarefas. O sétimo dia, porém, é o sábado de Javé seu Deus. Não faça nenhum trabalho, nem você, nem seu filho, nem sua filha, nem o seu escravo, nem sua escrava, nem e seu animal, nem o imigrante que a vive em suas cidades. Porque em seis dias Javé fez o céu, a terra, o mar e tudo o que existe neles; e no sétimo dia ele descansou. Por isso, e Javé abençoou o dia de sábado e o santificou (Ex 20,8-11).
No Egito, e mesmo na Babilônia, o povo trabalhava sete dias por semana até se exaurir e morrer completamente sem esperança, sem dignidade humana e sem sentido para viver. A comunidade de Javé não vive para trabalhar, mas trabalha para viver. Aí vem a lembrança: Javé tirou o povo da casa p da escravidão (Ex 20,2) porque ele quer homens e mulheres livres, com dignidade: Assim, o sábado é um dia no qual o ser humano deve repousar para não voltar a ser escravo, como no Egito. O sábado, mais do que uma lei a cumprir, é um meio de preservar a liberdade e alimentar o sonho da utopia da grande liberdade que um dia teremos em Deus. O sábado é também um dia de alimentar a comunidade, a convivência, pois também os escravos, os estrangeiros e até os animais devem descansar. Como vemos, a lei do sábado quer preservar a dignidade humana, impedindo que o ser humano fique exaurido.
Na Nova Aliança, os cristãos começaram a guardar o primeiro dia da semana, isto é, o domingo, pois Jesus ressuscitou neste dia (Jo 20,lss) na tarde do primeiro dia da semana o Ressuscitado aparece e confirma a Igreja (Jo 20,19-23). Tomé, que não estava no primeiro dia, teve de esperar oito dias, portanto, novamente o primeiro dia, para encontrar o Senhor (Jo 20,24ss). Paulo se reuniu no primeiro dia para celebrar (At 20,7ss). Em 1 Cor 16,2 Paulo pede que se faça coleta no primeiro dia, isto é, no dia da celebração. Em Ap 1,10 São João recebe a revelação do Apocalipse. Conclui-se que os cristãos não mais guardavam o sábado, mas o domingo. Afinal, Paulo nos diz que a, velha Lei foi abolida (Ef 2,15). E comum, no Novo Testamento, se superar a velha Lei (Hb 7,18s).

A LEI E O SER HUMANO - Qual é a postura de Jesus frente ao sábado? Ele vai à sinagoga no sábado (Lc4,16ss), porém, ele não ficou escravo de uma lei petrificada. Os fariseus haviam trans­formado a lei (Ex 20,8-11) em peso para o povo. Era lei pela lei, sem levar em conta o ser humano. O sábado já não era para garantir a liberdade, mas para oprimir os pequenos e fracos. Assim, Jesus logo entra em choque com esta instituição. Vejamos apenas alguns casos: em Mc 2,23-28 Jesus diz que o sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado. Em Mc 3,1-6 Jesus cura, em sábado, um homem da mão atrofiada, contra a severidade da lei. Em João 5,lss Jesus cura, novamente em um sábado, um paralítico; e em Jo 9, lss, cura um cego. Em todos esses casos Jesus relativiza o sábado, ou seja, para ele, o que conta é o ser humano na sua integridade. Aliás, este era o espírito ao criar as leis, como visto acima, mas os fariseus a petrificaram.

DIGNIDADE HUMANA - Como ser fiel a este mandamento hoje? A questão não é se deve ser o sábado ou o domingo, mas sim, o ser humano não é máquina, portanto, deve ter seu dia de descanso, de santificação, de vivência comunitária, pois ninguém pode trabalhar sempre, até porque nem só de pão vive o homem (Mt 4,4). Existem outros valores a serem cultivados, além dos econômicos. Como somos membros da Nova e Eterna Aliança, guardamos o primeiro e não o sétimo. Mas, sendo o sétimo, ou primeiro, precisamos recuperar verdadeiro sentido deste dia: a dignidade humana, a liberdade e o sonho do encontro definitivo com o Senhor.

Lição 04 - O QUARTO MANDAMENTO
O QUARTO MANDAMENTO
HONRAR TUA ASCENDÊNCIA
O quarto mandamento inclui uma promessa para aquele que o observar. Ele diz: "Honra teu pai e tua mãe para que se prolonguem teus dias na terra que Javé, teu Deus, te dá!" (Ex 20,12). Qual é o sentido deste mandamento?
O texto da Bíblia é claro: todos nós somos obrigados a honrar pai e mãe! Mas em que sentido esse respeito pelos pais da gente pode contribuir para prolongar a permanência do povo na terra que ele vai conquistar? Os egípcios também diziam aos filhos: "Honra teu pai e tua mãe!"
Quando hoje dizemos: "Honra teu pai e tua mãe", pensamos nas famílias em que nascemos. Famílias relativamente pequenas: pai, mãe e filhos. Cada uma delas vive a sua vida, independente da outra. Na Bíblia, porém, a família era mais ampla. Era o que hoje chamamos a "grande família patriarcal". Era um conjunto de várias famílias que moravam no mesmo lugar e que eram unidas entre si por laços de parentesco. A "família" daquele tempo correspondia ao nosso povoado. Dentro da sociedade, ela exercia a função que hoje está começando a ser exercida pelas comunidades. Assim, ((honrar pai e mãe) era respeitar os pais da gente e também respeitar os "pais" da comunidade. O quarto mandamento defende a família e a comunidade.
De que maneira a observância deste mandamento prolongava a vida e a permanência do povo na terra? Como ele respondia ao clamor do povo? Qual a causa da opressão que por ele era combatida? Aqui atingimos um dos pontos mais importantes dos dez mandamentos. No Egito e na Palestina, tudo estava organizado debaixo do poder centralizador do faraó e dos reis. O faraó e os reis impunham ao povo os seus feitores ou capatazes, "inspetores de obras" (Ex 1,11). Era uma organização não igualitária, feita de cima para baixo. O único poder ou autoridade reconhecida era o do faraó e dos reis. A autoridade dos outros vinha do faraó. Vinha de cima, não vinha do povo. Os "inspetores de obras" eram funcionários nomeados pelo faraó. Eles se impunham ao povo não pela autoridade, mas pela força (Ex 5,6-14). A organização da sociedade era como a pirâmide do Egito: o faraó em cima junto com os reis; os inspetores de obras no meio, a serviço dos interesses do faraó; o povo oprimido baixo. Graças a esse sistema, o faraó e os reis podiam explorar o povo impunemente e usar os filhos e as filhas do povo como bem queriam (1Sm 8,11-18). De todos se exigia: honrar o faraó, honrar os reis, respeitar a autoridade imposta pelo poder central, exercida em nome dos deuses. Essa organização era uma das causas da opressão que arrancava do povo o clamor.
Ora, no povo que se libertou da escravidão do faraó, essa situação não podia voltar nunca mais (Dt 17, (J 16). Para que este povo pudesse sobreviver como povo livre e prolongar os seus dias na terra) a sua organização tinha de ser outra, radicalmente diferente. Por isso, na nova organização,·a autoridade básica já não vinha de cima, mas vinha de baixo. Vinha das comunidades, das unidades menores da organização social. Era a partir dessa base que a autoridade subia para os níveis mais altos. “Cada família tinha o seu chefe, seu pai". Várias famílias se reuniam em clã. Cada clã tinha o seu chefe, seu "mais velho", ancião. Vários clãs se reuniam em tribo. Cada tribo tinha o seu chefe, seu "príncipe", como eles diziam. Regularmente, os representantes dos clãs e das tribos faziam as suas assembléias para discutir e decidir os rumos e a organização do povo. O livro de Josué traz o relatório de uma dessas assembléias (Js 24,1-28).
Esse novo sistema começou a ser introduzido depois da saída do Egito. Obedecendo a uma sugestão do seu sogro, Moisés descentralizou o poder (Ex 18,17-26). A base desse novo sistema é o respeito pela autoridade, dos "pais", é o respeito pela família, pela comunidade. Em canto nenhum dos dez mandamentos se pede que o rei ou o chefe do povo seja honrado. Mas se pede: "Honra teu pai e tua mãe para que se prolonguem teus dias na terra que Javé teu Deus te dá" (Ex 20,12). Quando, mais tarde, eles reintroduziram o sistema dos reis para poder enfrentar as ameaças dos filisteus, fizeram questão de exigir que o rei se comportasse como "irmão" e não se levantasse "orgulhosamente acima dos seus irmãos" (Dt 17,20; 17,15).
Com esse novo sistema de organização, o povo tinha condições de controlar os abusos de poder por parte dos grandes. Assim, por exemplo, conseguiram derrubar Abimelec que tinha tomado o poder por um golpe de estado (Jz 9,1-57). Controlado pela organização do povo, o poder dos chefes e dos príncipes era menos prepotente e era obrigado a prestar conta ao povo. Assim, por exemplo, Samuel, no fim da gestão, prestou conta dos anos que exerceu a função de Juiz (lSm 12,1-5). Assim se impedia que alguém se tornasse dono de tudo e começasse a oprimir os irmãos. Só assim era possível ao povo "prolongar os seus dias na terra que Javé lhe deu".
No Novo Testamento, Jesus retoma e reafirma o quarto mandamento em toda a sua plenitude. Ele mesmo foi submisso e obediente aos seus pais (Lc 2,51) e participou da vida da comunidade local de Nazaré durante trinta anos. Na comunidade, ele exercia a profissão ou o serviço de carpinteiro (Mc 6,3), participava das suas celebrações semanais (Lc 4,16) e das suas romarias (Lc 2,41-42). Essa maneira de "honrar os pais", tanto os da pequena família como os da grande família (comunidade), era a maneira de Jesus "honrar o Pai" do céu (Jo 8,49) e de ser obediente a ele (FI 2,8). Fiel à mais pura tradição do Antigo Testamento, Jesus denuncia e critica os maus fariseus e escribas que esvaziavam a autoridade dos pais em favor da auto­ridade do templo. Eles ensinavam o seguinte: o fulano que consagra a Deus e ao templo os bens com que poderia socorrer os pais nas necessidades, este já não tem obrigação de ajudar os pais (Mc 7,11-12). Ora Jesus denuncia esse abuso e coloca a obrigação de honrar os pais acima da obrigação de observar as tradições religiosas, criadas pelos doutores da lei e pelos sacerdo­tes (Mc 7,9-13).. E ao mesmo tempo em que re­força o poder e a autoridade dos pais contra as tradições dos grandes, ele reforça também o poder da co­munidade local para resolver os problemas do povo. Em caso de algum abuso ou crime, ele diz, deve-se procurar resolver o problema no grupo menor possível. Se isto não der certo, deve-se apelar para a "igreja", isto é, para a "comunidade". E aquilo que a comunidade decidir ficará como sendo decidido pelo próprio Deus (Mt 18,15­18). Numa palavra, Jesus reforça a autoridade dos pais da pequena e da grande família contra o poder daqueles que queriam impor ao povo as suas próprias idéias e defender os seus próprios interesses.

Lição 05 - DEZ MANDAMENTOS
O QUINTO MANDAMENTO
NÃO MATARÁS!
O quinto mandamento defende o direito à vida. Mandamento curto, mas muito importante: Qual o sentido deste mandamento? O sentido é aquele que o texto declara: "É proibido matar!" Mas aqui surge um problema. Em muitos lugares da Bíblia a própria lei de Deus manda matar (Ex 21,12-17). Bíblia diz: "Não matarás". Mas diz também: "Quem ferir a outro e causar a sua morte será morto" (Ex 21 12). Mata-se muito na Bíblia! Cidades inteiras são destruídas e os seus habitantes massacrados (Js 6,21; 8,24-25). E tudo isso era feito em nome de Deus! E ao mesmo tempo se diz: "Não matarás!". Como entender essa cor tradição? O problema continua até hoje! Em nome deste quinto mandamento são presos os criminosos que matam. Mas os grandes criminosos que matam milhares e até filhos de pessoas andam soltos e são até honrados. Em nome da defesa dos "valores cristãos da nossa civilização", eles não tem medo de massacrar uma população indefesa para defendê-la do que eles chamam o "comunismo ateu". Houve até bispos que abençoaram as armas que iam matar o povo do Vietnam! O Deus dos cristãos diz: "NÃO MATARÁS!" E em nome do seu Deus, os cristãos continuam matando! Como entender essa contradição?
Para começo de conversa, convém notar uma coisa que vale também para os outros mandamentos. O texto diz: "Não matarás!" À primeira vista, os mandamentos se dirigem a cada indivíduo em particular. Na realidade, porém, eles se dirigem, em primeiro lugar, ao povo como tal, à nova comunidade que se formou lá no deserto, logo após a saída do Egito. Não é somente o indivíduo que não pode matar. É o próprio povo que não pode matar. Ou seja, pelo quinto mandamento o próprio povo é obrigado a criar uma nova ordem em que já não se mata como se matava no Egito. Geralmente, ao explicar e aplicar o quinto mandamento, só se pensa nos indivíduos criminosos que matam. Não se pensa no sistema ou na organização errada do povo que mata muito mais.
No Egito, na "casa da escravidão", o faraó decretava leis que mandavam castigar os indivíduos que matavam. Por isso, Moisés, que tinha matado um fiscal, teve medo e fugiu (Ex 2,15). Mas o sistema com que o faraó governava o país, este não respeitava a vida do povo e matava todos os que fossem contrários aos seus interesses. Por exemplo, o medo de que o número crescente do povo oprimido fosse criar problemas para a segurança do Estado, levou o faraó a decretar a morte de todos os me-
No Egito, na casa da escravidão (Ex 20,2), bem como no período dos reis de Israel e de Judá, a vida dos pobres, dos pequenos, dos deficientes valia muito pouco. Escravos que já não possuíam aptidão para o serviço, pessoas inconvenientes ou revoltosas eram eliminadas (Ex 1,15s e Ex 1,22). O mesmo podemos constatar em 1Rs 21 quando a esposa do rei manda matar um agricultor inconveniente. Aliás, não se trata unicamente de casos isolados de assassinato, mas também de toda a política assassina dos faraós e dos reis. Desde o Egito até a Babilônia, muita gente morreu, não apenas por arma, mas por condições de vida subumana. Apolítica dos reis levava os pobres à morte precoce.

ESPERANÇA NA VIDA. Não matar quer devolver aos escravos libertos, bem como a todos os oprimidos da política dos reis, a esperança de não serem privados da vida. Para não voltar à casa da escravidão, não se deve eliminar a vida dos "inconvenientes". A vida é dom de Deus. O povo não pode atentar contra a vida dos mais fracos (Ex 22,20ss). Houve muitas guerras, muitas vezes ocasionadas por caprichos de reis e o povo pagava com a vida. Não matar quer que todas as pessoas possam viver sua vida em liberdade, pois Javé é Deus da vida.
No Novo Testamento ainda prevaleciam leis de morte. Os romanos esmagavam os rebeldes e indesejados (Mt 2, 16ss; Mc 6,24-29). Os próprios judeus eliminavam os inconvenientes (Jo 8,1-11), assim como eliminaram Jesus, bem como os dois ladrões crucificados com ele (Lc 23,39­43). No entanto, Jesus não apela para este método. Retoma a antiga lei (Ex 20,13) e diz: "Vocês ouviram o que foi dito aos antigos: ''Não mate! Quem matar será condenado pelo tribunal. Eu porém, lhes digo: todo aquele que fica com raiva do seu irmão, se torna réu perante o tribunal "(Mt 1 5,21). Jesus não apenas proíbe o assassinato, mas corta o mal pela raiz: Não se deve alimentar nenhum sentimento contra o irmão. Além disto, quando Pedro apela para a violência em legítima defesa, Jesus o repreende (Jo 18, 10­11). Ensina o perdão até o infinito (Mt 18,21-22). Diante da mulher adúltera, que a lei mandava matar (Lv 20,10), ele diz: "Eu também não te condeno ..." (Jo 8,1l). E na hora da morte na cruz, não deseja a morte para ninguém, mas perdoa seus algozes (Lc 23,34). Sua meta era a vida. Ele diz: Eu vim para que todos tenham vida (Jo 10,10)
Jesus não apenas evitou a violência contra as pessoas, mas se colocou a favor da vida. Por isto, sua prática, desde os primeiros momentos de vida pública, foi a favor dos doentes, deficientes, pobres, pecadores, estrangeiros etc. Mais do que evitar o assassinato, o quinto mandamento, segundo Jesus, é um compromisso com a vida. Não matar não é apenas evitar as armas, mas é comprometer-se com a vida dos desafortunados.

FORMAS DE MATAR - Como ser fiel ao quinto mandamento, hoje? Não basta dizer: eu nunca matei ninguém, nunca usei uma arma, nunca pratiquei violência. Hoje se mata de muitas formas: roubando a dignidade das pessoas, explorando, oprimindo, traficando drogas, abusando do álcool, de cigarro e de outras coisas prejudiciais à vida, inclusive agredindo a natureza, nosso lar comum. A natureza ferida já não tem as condições de preservar a vida. Muitas pessoas já morreram pela poluição. Ficar indiferente frente ao sofrimento do povo é matar. Um belo exemplo de observância do quinto mandamento temos no trabalho de Zilda Arns e de toda pastoral da criança e da saúde. São pessoas que se sensibilizam frente à vida, assim como as parteiras do Egito e mesmo como Jesus.

Lição 06 - DEZ MANDAMENTOS
O SEXTO MANDAMENTO
RESPEITAR A IGUALDADE ENTRE HOMENS E MULHERES.
Geralmente, quando se pergunta: "Qual é o sexto mandamento?", o povo responde: "Não pecar contra a castidade! "Mas não é isto que a Bíblia diz". A Bíblia diz: "NÃO COMETERÁS ADULTÉRIO".
Qual o sentido deste mandamento? Como ele ajuda o povo a sair da "casa da escravidão" e a conquistar a plena liberdade que Deus lhe promete?
No Egito, na "casa da escravidão", a organização da sociedade era em forma de pirâmide: o faraó lá em cima, abençoado pelos falsos deuses; abaixo dele vinham os reis e o pessoal da classe dos funcionários; na base da pirâmide vivia o povo, sem voz nem vez. Era uma desigualdade radical. Ora, uma das causas que permitia a existência e a continuação desse sistema opressor era a mentalidade de que o homem é superior à mulher. A pirâmide existia não somente na organização da sociedade, isto é, na vida econômica, social, política e religiosa. Ela existia também dentro da cabeça dos homens em relação às mulheres. Cada família era uma pequena pirâmide, onde o grande sistema se reproduzia: o homem, o chefe de casa, lá em cima, como dono absoluto de tudo e, abaixo dele, a mulher e os filhos, sem voz nem vez. Era lá, no coração da vida, que o sistema dominador do faraó e dos reis encontrava o seu adubo para poder sobreviver, séculos a fio! A mulher era explorada, privada dos seus direitos mais elementares e da sua identidade própria como mulher.
Em certo sentido, a pirâmide do faraó e todas as pirâmides, tanto as de ontem como as de hoje, puderam surgir, crescer e se manter, porque eram e continuam sendo alimentadas pela dominação do homem sobre a mulher. A pirâmide só será totalmente destruída no dia em que o relacionamento homem-mulher tiver chegado à igualdade real, em que tanto ela como ele puderem ser eles mesmos, completando-se mutuamente. Pois a idéia da superioridade do homem frente à mulher tornou-se tão forte que entrou na cabeça das próprias mulheres e criou em muitas delas um complexo de inferioridade frente ao homem. Na hora de elas acordarem para os seus direitos, não sabem bem quais são os seus direitos. Ou melhor, tanto o homem, ao julgar-se superior e onipotente, quanto a mulher, ao desvalorizar-se, não sabem quais são seus direitos, o que impede a ambos de trocá-los na igualdade e na complementariedade. Sinal de que a opressão, do homem sobre a mulher é muito profunda mesmo!
Ora, no sexto mandamento, a lei de Deus mostra a sua profundidade e a sua importância. A mudança que ela quer realizar na sociedade é radical e total. O relacionamento entre as pessoas deve mudar totalmente. Deve tornar-se um relacionamento de igual para igual, relacionamento de amor e de fraternidade. Não basta que se criem relacionamentos de igualdade no campo político, econômico e social. O relacionamento de igualdade deve penetrar tudo, até no núcleo mais íntimo da vida humana e da sociedade, que é o relacionamento homem e mulher que se completam no casamento. E o passo concreto que a lei de Deus dá nessa direção é descrito no sexto mandamento que diz: "Não cometerás adultério!"
O sexto mandamento não faz distinção entre homem e mulher. Tanto ao homem como à mulher, a nenhum dos dois é permitido ser infiel ao seu companheiro, à sua companheira. Na realidade, a mulher sempre levou desvantagem frente ao homem na aplicação concreta deste mandamento. Não era considerado adultério quando um homem casado tinha relações sexuais com uma moça não casada. Isto era considerado apenas como ofensa ao pai da moça, ao qual o culpado tinha de pagar uma indenização (Dt 22,28-29). Para a mulher, porém, qualquer relação com outro homem era considerada adultério. Assim o objetivo da lei não era alcançado. Permanecia a desigualdade entre homem e mulher. Permanecia a dominação do homem sobre a mulher.
Mas, os ideais da igualdade e complementariedade entre homem e mulher ficaram, e renascia sempre. Renasceu quando foi descrita a criação, onde se diz: "Deus criou o ser humano à sua imagem. À imagem de Deus o criou: “homem e mulher os criou!”(Gn 1,27). É na igualdade fundamental entre o homem e a mulher, e no amor pelo qual os dois se completam na unidade do casal, que se revela a semelhança do ser humano com Deus! Mas esse ideal, tão importante para a reta organização da sociedade, nunca foi alcançado no Antigo Testamento. O machismo foi sempre mais forte.
No Novo Testamento, Jesus retoma o ideal que Deus tinha em mente quando deu o sexto mandamento: "Ouvistes o que foi dito: 'Não cometerás adultério!' Eu, porém, vos digo: todo aquele que lançar um olhar de cobiça para uma mulher, já cometeu adultério com ela em seu coração!" (Mt 5,27-28). Naquele tempo, o divórcio era facilitado. Por qualquer motivo, o homem podia mandar embora a sua esposa. Jesus diz: "Não lestes que desde o princípio o Criador os fez homem e mulher? E disse: Por isso, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher e os dois serão uma só carne? De modo que já não são dois, mas uma só carne. Portanto, que o homem não separe o que Deus uniu." (Mt 19,4-6). E ele proibiu que a esposa fosse repudiada. Quem repudiava sua esposa e casava com outra mulher, cometia adultério e era motivo para que sua esposa também cometesse adultério (Mt 5,31-32; 19,7-9). Jesus retira todos os supostos privilégios do homem frente à mulher. Não permite ao homem usar ou desejar a mulher como ,Se fosse um objeto a seu dispor (Mt 5,27-28). Esta fala de Jesus impressionou tanto os apóstolos que eles disseram: "Se é assim a condição do homem em relação à mulher, então não vale a pena casar-se!" (Mt 19,10). Isto é um sinal de que Jesus limitou a superioridade que o homem imaginava ter frente à mulher. Ele quis restabelecer a igualdade.
O mesmo ideal de igualdade é retomado por São Paulo. Na nova comunidade fundada em Cristo "não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher pois todos vós sais um só em Cristo Jesus" (GI 3,28). Na realidade, nem nas comunidades dos primeiros cristãos essa igualdade básica entre homem e mulher foi alcançada. O próprio São Paulo, apesar do ideal tão claro, colocava sérias restrições (1 Cor 11,2-16). Sinal de que se tratava mesmo de uma raiz muito profunda, difícil de ser arrancada do coração do homem.
No catecismo, o sexto mandamento muitas vezes foi reduzido à prática da castidade, entendida como um esforço de se respeitar o próprio corpo. A Bíblia, porém, quer mais do que isto. Ela quer que seja respeitada a imagem de Deus no ser humano. Esta imagem só aparecerá plenamente quando o homem e a mulher chegarem a um respeito mútuo, e quando o amor entre ambos não for mais motivo para um dominar o outro, mas for motivo de crescimento igual e harmonioso para ambos. O sexto mandamento quer dar um passo em direção à plena liberdade. Quer acabar com uma das raízes mais profundas dos sistemas de opressão que é a dominação do homem sobre a mulher. É um desafio!

Lição 07 - DEZ MANDAMENTOS
O SÉTIMO MANDAMENTO
“NÃO ROUBARÁS, NÃO FURTARÁS”
A Bíblia nos diz: "Não roube" (Ex 20,15). Em nossos catecismos lemos: não furtar. Qual o sentido deste mandamento? Como ele responde ao clamor do povo que sofria na "casa da escravidão do Egito"? Não é fácil a resposta. Hoje em dia, o povo diz: "Pobre que rouba é ladrão; rico que rouba é barão!" Os maiores roubos não são feitos pelos pobres, mas pelos ricos.
No Egito e mesmo em Israel era proibido roubar e havia severas punições para pequenos ladrões, porém, o sistema do faraó e dos reis de Canaã favorecia os grandes roubos. O faraó mantinha escravos, isto é, roubava o suor do seu povo, do nascer até a morte. Os reis de Israel eram exploradores. Exigiam do povo tributos impossíveis. Levavam os filhos e filhas como mão de obra, os melhores animais, as melhores terras e ainda cobravam 10% do pouco que as famílias conseguiam produzir. Era o "direito do rei" reconhecido por lei (1Sm 8,10-18). Enquanto isso, os reis viviam no luxo, por exemplo, o rei Salomão chegou a ter uma renda anual de 666 talentos de ouro (1Rs 10,14). São mais de 22 toneladas de ouro! Chegou a empregar em trabalhos forçados na construção do templo ao todo mais de 180.000 operários (1Rs 5,13-16; na Bíblia de Jerusalém é 1Rs 5,27-30). Ele era dono de uma frota de navios (1Rs 9,26-28; 10,22). No seu palácio, os pratos, os copos e os talheres eram de ouro puro (1Rs 10,21). Tinha 1.400 carros e 12.000 cavaleiros (1Rs 10,26). Diariamente recebia 13.500 litros de flor de farinha e 27.000 de farinha comum, 10 bois cevados e 20 bois de pasto, além de muitas outras coisas, entregues a ele pelos prefeitos, nomeados por ele no país inteiro (1Rs 4,22-23.27-28; na Bíblia de Jerusalém é 1Rs 5,2-3.7-8). No entanto, nunca ninguém o chamou de ladrão, pois era um direito que a lei lhe dava! Este é o grande sistema de roubo, o sistema institucionalizado, que nem sequer recebe o nome de roubo.
Da mesma maneira o faraó roubava as terras, não pagava salário, roubava a força física do povo. Esse roubo tão grande arrancava o clamor da boca do povo e fazia o povo chorar de angústia (Ex 3,7). Esse roubo não era castigado, nem era chamado de roubo! Mas Deus o observou, o examinou, percebeu as conseqüências e, por isso, na sua lei, ele decretou: "Não furtarás.''' (Ex 20,15). Dizendo: "Não furtarás" ele não se dirige em primeiro lugar a um indivíduo isolado, mas ao próprio povo. Deus deseja uma nova organização que não seja baseada no roubo legitimado por lei.
E neste ponto, para impedir que uma parte do povo roubasse a outra parte do povo, eles souberam criar leis. A formação de latifúndios, denunciada por Isaías e Miquéias (Is 5,8 e Mq 2,2), foi combatida pela lei do ano jubilar. A lei do ano jubilar estabelecia que, a cada 50 anos, todas as compras e vendas de terras fossem desfeitas e que as terras voltassem para o seu primeiro proprietário (Lv 25,8-31). E o fundamento dessa lei era o seguinte: "A terra não será vendida perpetuamente pois que a terra me pertence e vós sois para mim estrangeiros e moradores temporários" (Lv 25,23).
Eles queriam uma sociedade onde as instituições fossem tais que não fosse possível a acumulação de bens na mão de um só, nem de grupos. A história do maná que caiu no deserto tinha por finalidade ensinar ao povo que ele não devia acumular bens, mas que devia confiar na providência. A história diz que Deus fez chover o pão do céu "para colocar o povo à prova e para ver se ele ainda andava na lei de Deus" (Ex 16,4). A prova consistia nisto: cada um só podia colher o necessário para o dia e não podia acumular, O alimento acumulado apodrecia. Só podia acumular em vista da necessidade do sábado, mas não em vista de ter mais do que os outros (Ex 16,19-24).
Também havia leis para impedir os pequenos roubos (Ex 22,1-15). Enfim, eles queriam uma sociedade onde a segurança fosse total, e onde cada um fosse respeitado nos meios de vida que possuía. Uma sociedade assim dava tranqüilidade e favorecia a convivência e a confiança mútua. A observância do sétimo mandamento gerava no povo a preocupação constante de evitar o acúmulo de bens e a exploração do irmão. Ele faz entender que a Providência Divina passa pela organização fraterna e justa do povo.
Mais tarde, com a volta do rei, voltou a "casa da escravidão". Basta lembrar o que dissemos sobre o rei Salomão. Os profetas não tinham medo de chamar o pró­prio rei de injusto, "que faz o seu próximo trabalhar de graça e não lhe dá o seu salário» (Jr 22,13). Jeremias denunciou o rei: "Tu não tens olhos nem coração senão para o teu lucro, para o sangue inocente a derramar, para a opressão e a violência a praticar!" (Jr 22,17). De todos os reis que passaram pelo trono de Judá, só três escaparam: Davi, Ezequias e Josias. Todos os outros caíram na ganância e foram ladrões. Receberam críticas fortes dos profetas e do autor do livro dos Reis! O poder corrompe as pessoas e as leva à prática da violência, do roubo e da corrupção.
Não roubar é uma maneira de não repetir a truculência do Egito, dos reis de Israel e de Judá, pois quando o mais forte institucionaliza o roubo, o povo vira escravo e volta ao Egito, à casa da escravidão (Ex 20,2). Por isso, o sétimo mandamento quer ser mais do que um mero apelo a não tirar nada às escondidas, mas quer impedir que pessoas mais fortes, organizações como o estado possam extorquir os mais fracos. O rei não deve ambicionar riquezas (Dt 17, 16ss), os poderosos são advertidos (Is 5,8ss), os que fazem leis recebem admoestação (Is 10,1 ss). Nos profetas estes apelos são muito comuns (Am 2,4ss; Jr 22, 13ss) etc.
Nos tempos do Novo Testamento o povo estava carregando pesados fardos (Mt 23,4). Os pequenos e fracos que não possuíam terras quando pediam emprestado para alimentar seus filhos e depois não podiam devolver, eram aprisionados, ou viravam escravos.
Jesus se apresenta como aquele que é ungido para anunciar a Boa Nova aos pobres e a libertação aos presos por dívidas impagáveis (Lc 418ss), pede o perdão das dívidas (Mt 6,12), exorta os ricos com palavras duras (Lc 6,24-26). Declara os pobres que são vítimas desta exploração, felizes (Mt 5,1­12 e Lc 6,20-23). Jesus deslegitima o sistema de roubo.
A Igreja, logo no início de sua missão, luta para impedir o roubo institucionalizado (Tg 5,1-6). São Paulo exorta: "O que furtava não mais furte, mas trabalhe com suas próprias mãos...” (Ef 4,28). Trabalhar com as próprias mãos era algo humilhante para a cultura grega. Assim os poderosos possuíam escravos que faziam seu serviço. Paulo pede que não furtem mais e que trabalhem com suas próprias mãos, ou seja, destruam o sistema de roubo.

OS DESONESTOS. Hoje, para ser fiel ao sétimo mandamento, não basta apenas evitar subtrair coisas alheias, no sentido de entrar na casa de alguém, ou em suas propriedades e, às escondidas, se apropriar de seus pertences. Não basta apenas evitar o uso da força ou das armas para arrancar bens alheios. Não são muitas as pessoas que assim agem, o que não quer dizer que poucos contrariem o sétimo mandamento. Quando comercializamos algo, seja comprando, seja vendendo, como olhamos para o nosso próximo? Abusamos dos menos esclarecidos? Abusamos dos mais fracos? Como partilhamos o fruto de trabalhos conjuntos? Reter salários é roubo, tirar vantagens imerecidas através da astúcia, logro e lábia é roubo. Agir mal com as coisas públicas, desviar bens do erário público, não cumprir com os deveres sociais são outras tantas formas de roubar. Enfim, tirar proveito de alguém ou de alguma situação social é roubo.
Os maiores ladrões certamente não são aqueles que invadem e, às escondidas roubam, ou o fazem à força das armas. Os maiores ladrões são aquelas pessoas que, quando surge uma ocasião, desviam dinheiro, exploram o mais fraco, ou seja, não são honestos.

Lição 08 - DEZ MANDAMENTOS
O OITAVO MANDAMENTO
NÃO LEVANTAR FALSO TESTEMUNHO
Nos catecismos se lê: "Não levantar falso testemunho". Na Bíblia consta: "Não apresente testemunho falso contra seu próximo" (Ex 20,16). Qual o sentido deste mandamento? Como ele responde ao clamor do povo? Qual a causa da opressão que ele quer atacar e combater? Também aqui vale re­petir o começo dos Dez Mandamentos: "Eu sou Javé, teu Deus, que te fez sair do Egito, da casa da escravidão. Por isso: Não dirás falso testemunho contra o teu próximo!"
No Egito, na casa da escravidão (Ex 20,2) e nos reinos de Israel e de Judá também se ensinava a não mentir. Mesmo assim, a política oficial estava baseada na grande mentira. O faraó proclamava ao povo: "Eu sou o filho de Deus!". E em nome desta mentira, ele oprimia e explo­rava o povo impunemente. Em nome desta mentira, ele fazia o que bem entendia, e os pobres eram impossibilita­dos de conseguir os seus direitos. A ganância do faraó, dos reis e dos grandes comprava os juízes e os advogados e, no tribunal, ninguém defendia o direito dos pobres, do órfão e da viúva (Is 1,23; Jr 2,8). A mentira era também usada para se apossar dos bens alheios (1Rs 21,8ss), ''vendem o justo por dinheiro" (Am 2,6; 5,7; 6,12; Mq 3,1-4; 3,9-11; 7,1-3). Os responsáveis pela aplicação da justiça tinham transformado a própria lei de Deus num instrumento de mentira (Jr 8,8). O sistema jurídico estava podre. Desapareceu o amor à verdade! Esta era a situação criada pelo sistema dos reis de Judá e de Israel. Ela nos dá uma idéia de como era a situação do povo dos pobres lá no Egito, na "casa da escravidão". Pois os reis da Palestina copiavam o modelo do faraó do Egito.
Assim, tanto no Egito como em todos os reinos, para se poder manter a te política opressora era preciso usar a mentira. Ora apresentando os monarcas como divindades, ora como filhos prediletos das divin­dades, ora como executores da vontade divina. O povo humilde nunca podia contar com seus di­reitos, pois até os tribunais eram corrompidos. Estas mentiras eram mais do que pequenas vantagens contadas em rodas de amigos. Trata-se de um sistema sujo de opressão. Era a mentira que mantinha os privilégios e roubava a dignidade do povo.
Jesus se apresenta como a Verdade (10 14,6). Quando o demônio lhe apresenta todos os reinos do mundo (Lc 4,5ss), exigindo em tro­ca uma mentira, isto é, ajoelhar-se diante dele e adorá-lo, Jesus apela para a verdade suprema: "Você adorará o Senhor seu Deus, e so­mente a Ele servirá" (Lc 4,8). A grande mentira de adorar o diabo, fazendo dele um ser divino serviria para legitimaria o seu domínio sobre os impérios. Neste caso Jesus se tomaria um poderoso deste mundo para oprimir o povo. Quando Jesus responde que só a De,us se deve adorar, Ele professa a grande verdade que liberta.Jesus não se torna m um poderoso deste mundo, antes, em adoração a Deus, se compromete com todos os povos, o que o leva à cruz. Por isto ele mesmo foi eliminado por uma mentira (Mc 14,55-59). As mesmas mentiras que legitimavam o poder dos faraós e de tantos outros senhores deste mundo eliminaram Jesus e continuaram a eliminar os discípulos do Senhor. Assim sucedeu a Estêvão (At 6,13-14) e a muitos outros (Mt 5,11). Estas mentiras q continuam na história: "Quem é o mentiroso senão o que nega que Jesus é o Cristo?" (1102,22).
Como ser fiel ao oitavo mandamento, hoje? Já percebemos p que não se trata de mentirinhas de crianças, nem daquelas vantagenzinhas contadas em rodas de amigos. E claro que também estas d devem ser evitadas. Mas o oitavo a mandamento nos pede muito mais p do que isto. Hoje a mentira é usada diariamente, em nosso meio.
Algumas das agências de notícias veiculam as informações de maneira tendenciosa. Assim nas atuais questões envolvendo causas populares, geralmente prevalece a ''verdade'' de quem manipula: Os pequenos sempre são vistos como baderneiros.

INFORMAÇÃO MANIPULADA - Assistindo a certos noticiários pode-se entender que todos os la­drões, assassinos e malfeitores são pobres e moram nas favelas. Tanto que pessoas boas, porém mal in­formadas, criam um sentimento de mal-estar diante dos desfavorecidos do povo. Pouco se fala dos grandes traficantes, mas muito dos pequenos que distribuem as drogas nas favelas. Pouco se fala dos grandes ladrões, mas muito dos ladrões de galinha. O que dizer das notícias desfavoráveis sobre a Igreja? São as verdades mani­puladas que viram grandes men­tiras que contribuem para manter privilégios de alguns e escravizar tantos outros.

Lição 09 - DEZ MANDAMENTOS
O NONO E O DÉCIMO MANDAMENTOS
“NÃO COBIÇARÁS NADA QUE NÃO TE PERTENÇA”
Para nós, hoje, o nono mandamento diz: "Não desejar a mulher do próximo". A Bíblia diz: "Não cobiçarás a casa do teu próximo, não cobiçarás a sua mulher, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma que pertença a teu próximo" (Ex 20,17).
Nós dividimos o nono mandamento em dois. Por isso temos dez mandamentos. O nono proíbe cobiçar a mulher do próximo. O décimo proíbe cobiçar a propriedade alheia. Aqui, nós vamos tratar os dois juntos, como faz a própria Bíblia.
Qual o sentido deste último mandamento? Como ele responde ao clamor do povo que sofria na "casa da escravidão do Egito?" Qual a causa da opressão que ele quer atacar e combater? Hoje acontece o seguinte. Os pobres que foram expulsos das suas terras por ricaços que compram tudo à vista, não podem reaver as suas terras. Pois invoca-se o décimo mandamento que proíbe desejar os bens do próximo e manda respeitar a propriedade dos outros. Será que este é o sentido deste mandamento?
O último mandamento ataca e combate a ganância e a cobiça. A ganância do faraó era grande. Ele era imitado pelos reis de Canaã. Basta lembrar a ganância do rei Salomão. Quando o profeta Samuel, velho já, encerrou a sua carreira de chefe e juiz, ele prestou conta da sua gestão e mostrou que nunca tinha sido ganancioso (1Sam 12, 3 - 5). Depois de Samuel vieram os reis (1 Sam 12, 1-2). Os reis nunca prestaram conta ao povo. Imitando o faraó e os outros reis, eles começaram a acumular levados pela ganância. Davi abriu a fila (2 Sam 12, 1-9). Salomão o imitou e o superou! Ele chegou a ter ao todo mil mulheres (1 Reis 11, 3). Muitas delas eram estrangeiras (1Reis 11, 1). Eram casamentos políticos, na sua maior parte, para conseguir maior influência e ampliar o seu domínio e comércio. Por causa disso, ele se desviou da aliança com Deus e deixou de observar a lei (1Reis 11, 11). Outro caso de ganância dos reis é o rei Acab. Sendo dono de muitas terras, queria também o pequeno roçado de Nabot. Para obtê-lo, Jezabel, sua mulher, filha do rei de Tiro, agindo dentro dos costumes normais dos reis daquele tempo, não teve medo de matar Nabot (1Reis, 21,1-26). Tudo isto nos dá uma idéia de tomo era a ganância do faraó e de como esta ganância fazia sofrer o povo oprimido.
Esta ganância, gerada e alimentada pelo sistema dos reis, contaminava a todos. Nos pequenos, a ganância se manifestava no desejo de possuir, na inveja na ambição. Surgem assim "os pobres com cabeça de rico". Na hora de lutar, quando a situação se torna difícil, aí eles recuam e não se comprometem (Ex 5,21; 14,11;16,3). A ganância alimentada pelo sistema impedia de ter uma visão clara das coisas e da vida.
Por tudo isso, não adiantava proibir o roubo, se não se combatia também a ganância que causava o roubo. Ora, o último mandamento procura atingir essa raiz da opressão, combate a sua causa mais profunda: "Não cobiçarás nada do que pertence a teu próximo!". Esta lei é para impedir que o sistema da escravidão volte a reinar e a dominar o povo. Ela defende o direito que os peque­nos têm de possuir o necessário para viver.
O último mandamento não pode ser invocado para defender a propriedade privada dos grandes que nun­ca se cansam em juntar mais terras e mais riquezas. Invocar este mandamento e para defender o latifúndio que cria tanta opressão e tanta injustiça, é o mesmo que " invocar o nome de Javé em vão!" É o mesmo que transformar a lei de Deus em instrumento de mentira (J r 8,8). É manter a letra e negar o espírito da lei. O sistema do faraó não pode ser defendido por uma lei que quer exatamente o contrário!
No Novo Testamento, Jesus condena a ganância dos que só querem acumular bens (Lc 12,16-21). Ele vive livre da posse e, em vez de possuir, torna-se ele mesmo posse de Deus. Torna-se Reino de Deus, através da sua obediência radical ao Pai (Fl 2,8; Hb 5,8). Jesus propõe o exemplo das flores e dos passarinhos (Lc 12,22-31). Onde houver uma organização fraterna de partilha de acordo com os Dez Mandamentos, isto é, onde se busca primeiro o Reino de Deus e a sua justiça, aí, de fato, todas as outras coisas virão por acréscimo (Mt 6,33), e as pessoas podem deixar de lado toda a preocupação e viver realmente como os passarinhos e as flores do campo. A providência divina se revela na organização fraterna da vida.
Os primeiros cristãos conseguiram realizar esse ideal durante algum tempo. Em vez de cobiçar e acumular, eles vendiam os seus bens e os dividiam entre os necessitados (At 4,32-35). Mas quando, anos mais tarde, São Tiago escreve sua carta, a situação já não era assim. Ele condena violentamente os ricos que se enriqueciam à custa dos pobres sem defesa. São Tiago diz aos ricos: "Vocês condenaram o justo e o mataram, porque ele não oferecia resistência" (Tg 5,6).
A fraqueza sem defesa do pobre suscita e aumenta a ganância e a prepotência impune dos ricos. Por isso, o último mandamento conclama o povo oprimido, que acabava de sair da escravidão do Egito, a se organizar de maneira diferente. Só assim se poderia impedir que a ganância tornasse a infiltrar-se na sua cabeça.
E hoje em dia? Como está sendo observado o último mandamento da Lei de Deus? A propaganda na televisão, no rádio, nas revistas, em todo canto, é feita para alimentar no povo o desejo de comprar e de possuir. Ela cria necessidades artificiais e faz o povo sentir-se infeliz e até inferior aos outros, enquanto não tiver com­prado este ou aquele artigo da propaganda. Na propaganda a mulher é usada para aumentar a venda dos produtos. Moças bonitas com pouca roupa para aumentar o desejo, a ganância e a cobiça. O consumismo tomou conta da nossa sociedade e leva quase todos a transgredir este último mandamento da Lei de Deus.

Lição 10 - DEZ MANDAMENTOS
CONCLUSÃO
Os Dez Mandamentos nasceram para garantir a vida do povo. Javé, o Deus da Vida, quer vida digna para seu povo. Não quer que o povo reproduza a vida do Egito, a casa da escravidão. Os Dez Man­damentos sempre devem ser lidos a partir da seguinte frase: "Eu sou Javé seu Deus, que fez você sair da terra do Egito, da casa da escravidão" (Ex 20,2). Assim, os Dez Mandamentos são dez remédios contra os males da escravidão. Por isto, o que importa é a vida digna das pessoas e não os mandamentos. Os mandamentos são meios para garantir vida digna e não: fins em si mesmos.
Nós, cristãos, já não vivemos no Antigo Testamento. Os Dez Mandamentos são parte integrante da antiga aliança. Nosso referencial é Jesus Cristo e não o conteúdo da Lei. Por que, então, estudamos os mesmos? Vejamos como o apóstolo Paulo cuidou do assunto: em primeiro lugar ele nos adverte: "Jesus aboliu a Lei dos mandamentos e preceitos" (Ef 2,15). Em outro , texto afirma: "Sabemos, entretanto, que o homem não se toma justo pelas obras da Lei, mas somente pela fé em Jesus Cristo. Nós também acreditamos em Jesus Cristo, a fim de nos tomarmos justos pela 1 fé em Cristo e não pela observância da Lei, pois com a observância da - Lei ninguém se tomará justo" (G1 2,16). Com isto não se quer dizer que nós cristãos podemos transgredir os Dez Mandamentos. O próprio Paulo nos adverte: "Irmãos, vocês foram chamados para ser livres. Que esta liberdade, porém, não se tome desculpa para vocês viverem satisfazendo os instintos egoístas. Pelo contrário, disponham-se a serviço uns dos outros através do amor" (G15,13). Então, para que serve a Lei do Antigo Testamento? Paulo, mais uma vez nos esclarece. Ele nos diz que a Lei era um indicativo enquanto éramos menores,· precisávamos da Lei. Com Cristo,porém; nos tomamos adultos e já não precisamos dela (leia Gl3,19-29).
Antes de Jesus a humanidade não tinha maturidade. Quando, porém, Jesus se encarnou (Gl 4,1-11) ele nos tomou maiores e já não esta­mos sob a tutela da Lei. A Lei estava gravada em pedras. Jesus, de acordo com Jr 31,31 nos deixou I princípios inscritos no coração (veja Mt 5,1-11).
Qual é a postura de Jesus diante da Lei? Percebemos que Jesus observava a Lei, mas também muitas vezes ele a transgredia. Jesus andava com leprosos, com deficientes e com pecadores. Tudo isto era vetado pela antiga lei. Ele não aceitou a lei do divórcio (Dt 24,lss). Em outras palavras, Jesus amava a Deus e as pessoas. Quan­do a Lei favorecia este amor a Deus e ao próximo, ele a observava. Quando uma lei não favorecia este amor, ele não tinha nenhum receio de passar por cima (veja o sábado em Mc 2,27 e Jo 5,lss).
Por isto voltamos a afirmar: quando uma lei favorece a vida, ela nos ajuda a entender a proposta de Jesus; quando já não protege a vida, ela deve ser eliminada.

AMOR AO PRÓXIMO - Como viver hoje os Dez Mandamentos? Se todos nós fôssemos maduros em nossa fé, em nossa adesão a Cristo, já não precisaríamos de Lei. Quem aderiu a Cristo não precisa de uma lei que mande amar a Deus, pois ele o faz gratuitamente. Quem assimilou o evangelho de Jesus não precisa de uma lei que lhe proíba de matar, roubar ou cometer adultério; pois de Cristo, nunca premia em coisas. O amor não permite isto. Mais uma vez o apóstolo Paulo nos esclarece: ''Não fiquem devendo nada a ninguém, a não ser o amor mútuo. Pois quem ama o próximo cumpriu plenamente a Lei. De fato, os mandamentos: não cometa adultério, não mate, não roube, não cobice, e todos os outros se resumem nesta sentença: "Ame o seu próximo como a si mesmo'" (Rm13,8-10). Enquanto nos faltar maturidade, precisamos da Lei. Quando formos maduros em Cristo, já não precisaremos das muletas da Lei.

2 comentários:

  1. Belíssima interpretação da palavra de Deus na Bíblia.

    Oxalá, todos a conheçam e conhecendo – a, incorporem no seu dia a dia para que todas e todos possam ter vida plena, primeiro espiritual, por que todo o mais vem por acréscimo, graça do Pai.

    O texto me reporta ao resumo dos 10 mandamentos feitos por Jesus em dois, quais sejam: Amar a Deus sob todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo.

    Por isso Jesus veio, não para abolir, mais para aperfeiçoar as leis, embora, seja um fato incontestável, quem ama como Jesus ama, não precisa de leis para viver o amor/caridade pleno.

    E como amar a Deus sob todas as coisas? E ao próximo como a ti mesmo?

    R: Vivendo como Jesus ensinou, amando, pois Deus é amor, razão pela qual o apóstolo Paulo nos diz: De tudo (três virtudes) a mais importante é o amor, pois senão tiver amor, nada lhe valerá as outras virtudes (I, Coritius 13, 13). Porque Deus é amor.

    Quem ama como Deus ama, não precisa de leis para saber o que é certo o que é errado.

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  2. Oi Gazato,

    Que belíssima reflexão, sobre o nosso manual de vida para sermos felizes. Que devemos seguir não só para termos uma consciência tranquila diante de Deus e dos irmãos, mas que também nos impulsione a lutar por uma vida digna para todos, em sinal de garantia dos direitos humanos, propostos pelo Criador. E Jesus resumiu tão bem quando disse que a lei deve levar os homens à plenitude da vida e do amor a Deus e ao próximo.
    Abraços,
    Márcia

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