quinta-feira, 5 de maio de 2011

Travessia – passo a passo, o caminho se faz ... caminhando!

Os capítulos 15 a 18 do Livro do Êxodo foram escolhidos para serem meditados e refletidos no mês da Bíblia deste ano. Neste trecho está a descrição de alguns episódios do início da travessia do Povo de Deus pelo deserto, a caminho da Terra Prometida

O estudo do Mês da Bíblia tem como tema: “Travessia – passo a passo, o caminho se faz”, e como lema: ”Aproximais-vos da presença do Senhor”.

Nesta perspectiva, faço minha reflexão sobre o trecho indicado deste apaixonante livro bíblico.

Primeira parte.

Embora a sugestão de estudo para o mês da Bíblia se restrinja aos capítulos 15 a 18 do Livro do Êxodo, a verdade é que, para esta reflexão, não podemos deixar de analisar também os capítulos precedentes e os posteriores, sob pena de olvidarmos de pontos importantes nesta caminhada do Povo de Deus.

Creio que um ponto importante a ser analisado se situa ainda no Egito, quando Javé concede ao faraó e aos egípcios todas as possibilidades de conversão, ou seja, a oportunidade de rever suas posições e seus conceitos quanto à iniqüidade da opressão que exerce sobre os hebreus e sobre todos os escravos e servos. E notamos que nenhum dos sinais forma eficazes para demover o Faraó e, embora tenham convencido aos seus magos, assessores e militares, a acomodação e a submissão destes às benesses do poder os manteve inativos, senão por algumas manifestações verbais, sem qualquer força de convencimento.

Foi somente o medo da força de Javé que fez com que o faraó permitisse a saída dos hebreus de seu território. Mas, tão logo os viu afastados de suas atividades escravas, o temor de perder o poder e a supremacia sobre este povo o fez mudar de idéia e persegui-los, para fazê-los retornar á submissão.   

A miraculosa travessia do Mar Vermelho e a destruição do exército faraônico mostram o poder que a fé exerce sobre os hebreus, especialmente sobre Moisés. Nada os impedirá de buscar seus objetivos, sendo a liberdade o principal deles. Depois buscarão local para sua fixação, antevendo na promessa de Javé e alimentados pela fé em seu Deus, alcançarem a Terra Prometida.

Mas, para muitos, a fé ainda não está consolidada e começam a murmurar e contestar quando as primeiras dificuldades aparecem e Javé os vai provendo ao longo da caminhada pedagógica. No entanto, entre eles surgem com certa constância o radicalismo de alguns, que não aceitam as dificuldades e os obstáculos que vão surgindo. Acham que Deus está obrigado a lhes dar tudo pronto e acabado, sem que tenham que se esforçar para obtenção do mínimo necessário para sua subsistência. E Javé caminha com eles ensinando que não é assim que deve ser. Cada ser humano daquele grupo tem que e precisa participar na construção da sociedade igualitária que pretendem construir.

A presença constante e amorosa de Javé durante toda a travessia mostra que Ele não abandona seu Povo, mas Ele quer também a participação de cada um e de todos. Os prodígios que aconteceram naquele deserto, embora de outras formas, continuam acontecendo no mundo de hoje. Basta nos abrirmos e abrir os olhos da fé e do coração para enxergá-los e percebê-los. Todavia, como outrora, Deus continua pedindo e precisando de nossa participação na construção de seu Reino de Amor e Paz. Ele continua nos animando a caminhar, mas a caminhar juntos, compartilhando as benesses e nos ajudando mutuamente nas necessidades de cada um e do grupo.

Prova disso é que Ele designa Jetro, sogro de Moisés para orientar seu genro e o grupo quanto à divisão de tarefas e quanto à organização das comunidades. A carga deve ser partilhada e todos os componentes do grupo devem assumir obrigações para consecução dos objetivos. A liberdade do opressor externo já foi obtida, mas é preciso vencer a opressão interna, decorrente do comodismo e da fuga de responsabilidades. Naquele grupo todos e cada um detêm responsabilidades que deverão ser assumidas com efetividade.      

Para que isto aconteça é necessário sempre o fortalecimento na fé, o louvor Àquele que os assiste, o agradecimento ao Deus que com eles caminha e o pedido constante e incessante de proteção e força para a caminhada. Esta proteção e força são obtidas na adoração e na oração a Javé. O Deus ciumento de seu Povo não os deixará jamais, mas Ele exige parceria. Estejam sempre Comigo e Eu jamais os abandonarei.

Esta parceria com Javé se dá na oração, na conversa individual e coletiva que com Ele estabelecemos. Ele sempre nos escuta quando lhe falamos com o coração.

Pois bem, com a partilha de responsabilidades criadas sob o conselho e orientação de Jetro, Moisés organiza seu povo e retoma a caminhada, mas, a recalcitrância de alguns se faz presente e evidente na caminhada. Murmúrios e contestações continuam a acontecer, mas a fé inamovível de Moisés no Deus que os tirou do Egito vai vencendo estes obstáculos. Para Moisés, Javé é um Farol que indica o rumo a tomar, a rota a seguir, dando-lhe sabedoria e os meios necessários para vencer as dificuldades e os obstáculos que aparecem. Quando as dificuldades parecem invencíveis, Moisés se retira e vai conversar em particular com Javé. Vai orar e buscar inspiração para superar tais dificuldades. E ele sempre obtém esta inspiração.

Com sua atuação e sua fé, Moisés vai conseguindo reunir aquele povo em prol do objetivo de alcançar a Terra Prometida. Ele estabelece a união através da divisão de tarefas e obrigações. Cada tribo recebe suas incumbências próprias, mas elas são interdependentes. De forma tal que todos se sentem e de fato estão envolvidos com os demais, pois uns dependem dos outros.

Nossa proposta de estudo se depara aqui com o seu pretenso final. A partida de Jetro e a retomada da caminhada pelos israelitas marcariam o final de nossa reflexão.       

No entanto, parece importante caminhar um pouco mais com este povo. A Aliança do Sinai é um marco precioso nesta caminhada. É aqui que Moisés recebe de Deus o Decálogo, as pedras da lei, e o Código da Aliança, que vão orientar o restante da caminhada.

Segunda parte.

Da reflexão sobre este pequeno trecho do Livro do Êxodo podemos tirar muitas lições para nossa caminhada como Povo de Deus rumo ao Reino, ruma à nossa Terra Prometida. Creio que apesar do grupo de Moisés ter chegado à Canaã, que os israelitas entenderam como sendo a Terra Prometida, nem eles e nem nós ainda alcançamos esta Terra Prometida que Jesus nós aponta como sendo o Reino dos Céus. Esta é a verdadeira Terra Prometida, à qual nós precisamos buscar e alcançar. Não se trata, nos parece claro, de um local, de um País ou um território.  Se trata da conversão, da mudança, do entendimento da humanidade que só em Deus, com Jesus a nos guiar através de seus ensinamentos e na força do Espírito Santo que caminha conosco e nos dá inspiração, intuição e vocação é que conseguiremos enfim alcançar a tão sonhada Terra Prometida, terra onde a fraternidade e a solidariedade, onde a amor, a compaixão e a caridade, onde a partilha e o compartilhamento serão os valores amados e cultivados. E, acima de tudo, a fé em um Deus que está sempre caminhando conosco, um Deus ciumento que quer ver seu Povo se amando, se abraçando, partilhando os bens materiais e espirituais que Ele nos propicia.

De forma que a caminhada de Povo do Êxodo deva ser nossa inspiração, a nos dizer que jamais poderemos desanimar, que jamais devemos deixar de sonhar e de acreditar nesta utopia.

Nós que acreditamos neste Deus de portentos e obras maravilhosas, devemos nos juntar ao grupo de Moisés que continua vivo em nossa memória e com ele caminhar; buscar em nossas comunidades, em nossos grupos de convívio e em nossas famílias a implantação da partilha e do compartilhamento, da caridade e da compaixão. E estender sempre nossas comunidades em termos de abrangência, crescer em número e em qualidade. Buscar sempre o outro, para que caminhemos lado a lado. Se pensarmos em família como filhos e filhas de Deus o universo de cada comunidade não terá fim. Somos todos filhos e filhas de Deus e irmãos em Cristo Jesus.

Nesta caminhada proposta jamais poderemos nos esquecer que Deus caminha conosco, que Jesus vai iluminando nosso caminho e que o Espírito Santo sempre estará nos intuindo e nos inspirando para as decisões certas. Para isso basta estarmos sempre em sintonia com o Altíssimo através de nossas orações individuais e coletivas, de nossas conversas ao pé do ouvido com Deus e com Jesus através de nosso comunicador espiritual, o Espírito que nos comunica a vontade do Pai e do Filho.

Se praticarmos estas ações, saberemos, cada um de nós, assumir nossas responsabilidades e nossas obrigações, dividindo e partilhando o peso de nossas tralhas de caminhada. É interessante que não precisamos de muito peso, desde que todos se ajudem mutuamente. Não será preciso que alguém coordene e assuma diversas obrigações na sua comunidade, pois todos estarão se disponibilizando para estas funções. Cada qual conhece seus dons e carismas e deve colocá-los a serviço dos demais.

Com isto, estaremos dividindo responsabilidades e obrigações, mas, na matemática divina, estaremos em franca progressão geométrica na unidade, no crescimento como pessoa, como ser humano, como irmãos de fé e de caminhada.

Como em Atos dos Apóstolos, aqueles que estão fora destas comunidades ficarão admirados em ver como nos amamos, como partilhamos, como somos unidos em Cristo. E, não existe evangelização mais eficaz do que o exemplo.

Sejamos então exemplo, sejamos Povo de Deus na caminhada, nos juntemos ao grupo de Moisés e nos coloquemos, de fato, nesta estrada que nos conduzirá à verdadeira Terra Prometida.  

Termino com um comentário que postei no Facebook, no link em que Márcia Resk nos indica e que remete a um clipe do Padre Fábio de Melo em que ele canta a música “O preço de uma vida”, uma feliz versão da música composta por Paolo Vallest e Beppe Datti, que foi sucesso na voz de Renato Russo, chamada “La forza della vita”. No refrão final, diz a letra da música:

Quando divisar a terra prometida
A reconhecerás, o preço de uma vida
Aquele que pagar pra ver
Nunca mais vai se afastar
Nunca mais vai se perder
    
Meu comentário foi o seguinte:

Esta linda versão nos fala de todo o itinerário do Povo de Deus, desde e Egito, passando pela conquista da suposta Terra Prometida (que ainda não foi conquistada). Diante da resistência humana, Deus nos mandou seu Filho unigênito, que pagou com a vida a ousadia de nos mostrar o caminho, a verdade e a vida e nós ainda não aprendemos como segui-lo. Mas, chegará o dia, enfim, que a humanidade divisará a Terra Prometida, terra onde corre leite e mel (Fé e Amor, porque a esperança será finalmente alcançada). E quem pagou para ver não mais se afastará e não mais ficará perdido. Esta é nossa utopia. O sonho de nossas vidas. E de nada valerá viver se a gente não sonhar esta utopia como a força mais ousada que há em nós, que sonhamos e não nos rendemos jamais.

Gazato – 05/05/2011

2 comentários:

  1. Muito bom Gazato, um roteiro de estudo e entendimento para o Cristão se direcionar e se integrar aos estudos da Igreja Católica, mas também uma orientação de estudo e revelação para todo e qualquer Cristão, interessado em entender a caminhada do Povo de Deus nos dias de hoje, ou melhor, engrossar as filas da caminhada do Povo de Deus. Passo a passo, caminhamos, lembrando toda e qualquer caminhada se faz com o primeiro passo. Obrigada, seus textos, eventualmente podem também, ajudar o caminheiro a acertar o passo ao compasso da música.
    Abraços.

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  2. Oi Mônica. Gostei do "acertar o passo ao compasso da música". De fato, a música sempre nos ajuda a caminhar com seu compasso. E mais, traz alegria e maior desenvoltura quando nos abrimos ao seus versos e nos embalamos no seu rítmo. Podemos enxergar a caminhada nessa vertente: como um concerto musical no qual todos somos músicos, cada qual com seus instrumentos musicais (dons e carismas).

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